" Nada acontece
por acaso. Não sou fã de escrever clichés, mas a frase anterior tornou-se numa
espécie de lema na minha vida. Nos últimos meses, tenho-a ouvido mais vezes do
que alguma vez imaginei e isso fez-me pensar no seu significado. Ainda não sei
meditar por isso ainda não consigo chegar ao cerne das questões nem tomar as
decisões mais acertadas. Ainda sou demasiado mundana. Mas acho que não sei ser
outra coisa. Apesar de existir um grupo de pessoas que me diz que sou
diferente, eu sinto-me igual a toda a gente. Talvez não igual. Talvez inferior.
Como se me faltasse sempre alguma coisa. Já perdi a conta às vezes em que me
sentei num local público em silêncio enquanto observava as pessoas que estavam
à minha volta. Não conheço os seus passados nem os seus presentes, mas gosto de
imaginar como serão os seus pensamentos naquele preciso momento; quando passam
por mim e os seus olhos se cruzam com os meus por um milésimo de segundo.
Pergunto-me o que fará a minha mãe continuar a viver a vida que tem. Será por amor?
Será que isso é o suficiente para viver uma vida longamente incompleta? Será
que lhe chega acordar todos os dias, ir trabalhar o máximo que consegue, ser
mal-tratada pelas pessoas que estão à sua volta e depois chegar a casa e não
ter a atenção total dos dois seres que mais ama? Será que lhe chega a
quantidade de vezes que a levei a comer fora ou a fazer compras comigo? Ou a
quantidade de vezes em que realmente a abracei e expressei o meu amor por ela?
Provavelmente não. Provavelmente ela deseja que eu o faça mais vezes, tal como
deseja que eu a ajude sempre que me pede – o que nunca acontece. Como a minha
mãe existem milhares de humanos. Mas eu, supostamente, não sou uma humana. Por
isso, se calhar é normal achar que a vida que nos é impingida não é nada de
jeito, nada satisfatória! Não sei precisar o ponto em que comecei a pensar
assim. Mas nada acontece por acaso.
Segundo
a minha mãe, eu quando era pequenina via coisas e falava com elas. Não eram
alucinações nem problemas mentais, era algo muito superior ao plano em que
vivemos. Ela contou-me que um dia, era eu ainda uma bebé de poucos meses, ela
tinha ido às compras e vinha carregada com os sacos, trazendo-me ao peito numa
espécie de malinha. Não sei o nome daquilo nem me apetece ir procurar, portanto
vai ficar malinha para bebés.
Enquanto ela descia as escadas, de sacos na mão e Sara ao peito, tropeçou e
começou a cair para a frente. Ela não teve tempo para reagir, como é óbvio. Se víssemos tal cena a acontecer num filme em câmara lenta, provavelmente
gritávamos para o ecrã, enquanto comíamos pipocas:
- Mas que raio?? Larga os sacos e
protege a bebé!
Não
foi isso que aconteceu, obviamente. Ela simplesmente caiu. O que ela me contou
foi que a única coisa que lhe passou pela cabeça era que me ia esmagar com o
peso do seu corpo e que não sabia como o impedir. Não foi preciso, no entanto.
Antes de chegar ao chão, o seu corpo manteve-se a flutuar a alguns centímetros
do mesmo e eu estava em segurança. Algo
me manteve viva naquele dia. E desde aí que ela se convenceu que eu não era uma
criança qualquer. Pelos vistos, sempre fui muito social na minha infância e
extremamente educada. Fácil de lidar e fácil de amar. Estavam lá todos os
ingredientes para eu crescer de maneira a tornar-me numa adulta com um futuro
promissor e cheio de sucesso. E no entanto aqui estou eu, sentada numa cadeira
em frente ao meu portátil à meia noite a escrever, desempregada e meio perdida.
O meu namorado está a tentar adormecer – felizmente ele adormece ainda melhor
com barulho portanto as teclas devem estar a ajudar – pois vai trabalhar às
quatro da manhã. Está a trabalhar porque quer construir um futuro para nós. É
esse o seu principal objectivo: sustentar-me. Ele não está habituado a não
viver junto da pessoa que ama. E eu, apesar de nunca ter tido casa própria,
também não quero estar longe dele. Ando há três meses à procura de emprego ou
de algo que me tire de casa. Talvez aquele futuro promissor e todo aquele
sucesso ainda estejam por chegar... E que seja ao lado dele, pois nada faz
sentido sem o ter perto de mim.
E
entretanto perdi-me. Quando começo a pensar nele, os meus pensamentos voam para
outros lados, outros mundos... Amá-lo dói tanto como me traz felicidade. E a
pior parte é conseguir explicar-lhe que a dor que eu sinto não é provocada por
ele mas sim por mim mesma. Como é que ele me consegue amar? Sinto que ele
merece alguém tão melhor que eu, tão mais...qualificada na vida. Provavelmente
devo estar a soar como alguém que se gosta de vitimizar. Afinal, a minha mãe
está sempre a afirmar que eu gosto muito de me fazer de vítima. Mas a verdade é
que eu nunca gostei de mim mesma. Quando me olho ao espelho, poucos são os dias
em que eu realmente gosto daquilo que vejo. Antigamente, era apenas o meu
aspecto físico que me incomodava. Actualmente, tenho vindo a questionar-me
também acerca do meu interior. Quem sou eu? Pensava que ia conseguir responder
a esta pergunta brevemente, mas algo me diz que ainda vou demorar algum tempo a
chegar lá.
Preciso
de ler o que escrevi para me situar novamente. Preciso de cinco minutos.
Voltei.
E vou voltar à minha infância. Segundo os meus pais, sempre fui uma criança
muito bondosa, carinhosa e fácil de lidar, tal como já tinha escrito. No
entanto, tenho algumas memórias menos boas que ainda hoje não consigo
compreender por completo. Como, por exemplo, porque é que me lembro de a minha
mãe ter tido um ataque de raiva e ter descarregado em mim a certa altura.
Lembro-me que estava na altura das limpezas de Primavera. Ela devia estar extremamente stressada e eu provavelmente só estava a empatá-la. Não me lembro
se fui brincar ou não, mas já tentei arranjar diversas razões para ela ter
feito o que fez. A que arranjei foi esta: ela estava a limpar o meu quarto,
frustrada com a sua vida, e eu entrei lá dentro e simplesmente fui brincar,
desarrumando as coisas que ela tinha arrumado e ocupando o espaço que ela
precisava para se manter sã. A partir daí, é tudo lágrimas e ranho na minha
memória. E dor. Lembro-me do meu pai ter pegado em mim ao colo e me ter levado
no carro para longe dali. Lembro-me também de ele ter ido tratar de um assunto
qualquer enquanto eu fiquei dentro do carro a olhar para a rua pelo vidro. Os
meus pensamentos eram básicos: o que fiz eu de mal para a mãe me ter batido?
Esse pensamento manteve-se na minha cabeça durante a minha vida toda. O que fiz
eu de mal para os meus pais acharem que mereço ser castigada e assediada por
eles durante a minha vida toda? Lembro-me de situações em que pedia algo à
minha mãe e ela me dizia que não. E eu perguntava “Mas porquê?” e ela respondia
“Porque não te posso dizer que sim a tudo.” Mas porque é que ela não o poderia
fazer? Eu sempre tive boas notas, ia à escola e nunca faltava, tinha amigos,
não fazia asneiras, mantinha-me longe dos problemas... Tudo o que me era
pedido, eu fazia. No entanto, nem tudo o que eu pedia tinha uma resposta
positiva. Quando comecei a deixar de fazer o que me era pedido, as coisas
começaram a piorar. Agora sim, eles acham que têm razões para me destruir por
completo. Porque, finalmente, eu deixei de fazer o que me era pedido. Não
arrumo a casa, não passo a ferro, não levanto a mesa, não guardo a loiça na
máquina, não acabei de tirar a carta de condução, não largo o computador, não
deixo de estar com o meu namorado e não acabei a minha licenciatura. Dei-lhes
tudo o que eles precisavam para o pesadelo em que eu vivia se tornar um
inferno. Se bem que o inferno é bastante relativo. Já olhei directamente nos
olhos do Diabo e não foi medo que senti – nem desconforto. Mas acho que fui
clara o suficiente ao descrever o meu desconforto diário no meio do meu seio
familiar. Há um ano atrás, o meu pai deu-me um excerto de porrada que me levou
a estar fora de casa durante um mês inteiro. Eles tinham acabado de chegar do
trabalho e eu tinha acabado de ir para o computador, pois tinha estado a
terminar trabalhos durante o dia e achei que estava na altura de ter a minha
pausa. A minha mãe chamou-me para fazer a cama e eu expliquei-lhe que teria de
a fazer mais tarde pois estava no meio de um jogo que não podia abandonar.
Segundos depois tinha o meu pai a gritar-me aos ouvidos, o que me fez levantar
da minha cadeira e fazer uma lista das coisas que tinha feito durante o dia,
para lhe mostrar que eu não era nenhuma inútil. Sim porque se há um adjectivo
que os meus pais usam muito para me caracterizar, esse é inútil. Enquanto fazia a minha lista, o meu pai agarrou-me pelo
pescoço e começou a apertá-lo. Empurrou-me para o sofá e começou a esmurrar-me,
fazendo força com o seu corpo contra o meu. Senti o meu ar todo a desaparecer e
o meu único reflexo foi dar-lhe pontapés, pois era a única parte do meu corpo
que não estava presa. Quando a minha mãe chegou à sala, ele soltou-me. O que
aconteceu a seguir desapareceu da minha memória mas muito provavelmente eu
simplesmente corri para o meu quarto, tranquei-me lá dentro e liguei ao meu
ex-namorado (naquela altura actual) para me ir buscar. Mas a pior parte nem
sequer foi o excerto de porrada que levei. A pior parte foi a colite nervosa
que desenvolvi ao longo desse mês e as coisas que vim a saber depois. Já sem
dinheiro para ir para a faculdade e constantemente enervada, tive que ligar à
minha mãe para discutir o meu futuro com ela. Esta recusou-se a dar-me dinheiro
sem consultar o meu pai e ainda me disse que eu é que lhe batera. Não sei em
que universo é que ela vive. Nem como raio é que ela pôde pensar numa coisa
dessas. Mas foi isso que ela transmitiu ao resto da minha família e de repente
eu passei a ficar conhecida como a filha que está sempre a desobedecer aos
pais, que os maltrata e que não faz nada. “Não estive lá para ver, mas sei que
erraste.” Palavras da minha tia. Ainda não percebi muito bem no que é que
errei. Terá sido no alvo dos meus pontapés, para tentar afastá-lo de mim e para
voltar a ganhar algum ar? A certa altura, senti que o meu próprio namorado
duvidava das minhas palavras. “Eu não estive lá, mas se tu dizes que aconteceu
é porque aconteceu.” Mas depois olhava para mim de uma maneira tão...banal.
Como se tudo aquilo fosse natural. Ou talvez eu andasse a pedi-las. Ou se
calhar estou a ser demasiado dura com ele. Ele sempre deu o seu melhor na nossa
relação. Mas o seu melhor nunca foi o suficiente.
E
estou a chegar a um assunto demasiado sensível. Por isso talvez seja melhor
voltar novamente para trás. Quando era pequena, lembro-me de estar deitada na
cama do meu tio Carlos, em casa da minha avó Fernanda, de pernas para o ar.
Quando ela entrou no quarto, vi o medo nos seus olhos. Esta pediu-me para me
colocar direita e explicou-me que tinha sido assim que o meu avô Idálio
morrera. As palavras que jorraram da minha boca, depois disso, eu senti que não
eram minhas. Contei-lhe que costumava ver o avô, que ele me costumava visitar e
falar comigo. Ela ficou muito emocionada e quase me santificou ali mesmo. E eu
continuava a pensar para mim mesma “Porque é que lhe menti?” mas depois uma voz
interior respondia “Não mentiste. Tu realmente via-lo. E falavas com ele. Há
muito tempo atrás.” Mas eu não me lembrava de nada..."