domingo, 4 de outubro de 2015

Eles comem tudo...

Hoje queria falar de várias coisas. Mas não me parece que vá escrever acerca de todas até porque normalmente quando me embrenho num assunto demoro algum tempo a sair dele e a tirar as minhas próprias conclusões. Portanto, acho que vou começar por aquele que neste momento me está a fazer mais confusão.

As eleições legislativas deste ano.

Eu nunca fui uma pessoa que se interessasse por política. Tenho uns pais que não costumam falar muito no assunto, mesmo tomando atenção aos debates, às assembleias e às notícias que correm pelo país todos os dias. No entanto, nunca aconteceu entrarmos em discussões acesas acerca desse assunto e eu também nunca estive interessada em tal coisa. Quando fiz 18 anos foi-me dado um novo direito: votar. Na altura estudei as minhas hipóteses todas para tentar entender o que é que cada acção queria dizer para o futuro do país; os votos em branco, os votos nulos, a abstenção... Decidi que iria sempre votar, nem que fosse no mal menor. Entretanto comecei a pensar em votar em branco pois, supostamente, se uma certa percentagem da população o fizesse, os candidatos seriam substituídos. A abstenção, no entanto, nunca me passou pela cabeça. Sentia que, se o fizesse, estaria a dar o poder de escolha às outras pessoas e não a mim mesma. Hoje, apesar de ter ido votar e de não ter deixado a folha em branco, senti-o à mesma. Senti que o poder de escolha não foi meu e que aquela cruzinha não fez qualquer tipo de diferença. Nos últimos anos tem-se assistido a diversas situações alarmantes. Manifestações, greves, emigração, miséria... Desigualdade. Uns com tanto e outros com tão pouco. Acho que, no fundo, isso é o que me incomoda mais. Sei que também há países em situações muito mais graves e precárias que o nosso mas eu não posso encher a minha mente com esses pensamentos senão vai surgir um ainda mais grave: o que estou eu a fazer aqui?

E já me estou a perder, novamente. Onde estava eu? Ah, as eleições de ontem. Então não é que depois de tantas queixas, tantas manifestações, tantas greves, os portugueses voltaram a votar nos mesmos? Eu pergunto-me se os votos são forjados ou se somos realmente um povo muito masoquista.

O João absteve-se de votar. Tentei dar-lhe a entender que isso não era o mais correcto mas ele também me deu as suas razões. Disse-me que, se mais 50% da população se abstivesse, todo o sistema teria que ser reformulado. E, realmente, parece que é disso que estamos a precisar. No entanto, algo me diz que o sistema nunca iria admitir que precisa de uma reformulação e nunca iríamos atingir esses resultados. Portanto, o que resta? Outra revolução dos cravos? Desta vez com mais sangue derramado pelas ruas de Lisboa? Não entendo. Sei que a Humanidade é mesmo assim: condenada e repetir os mesmos erros uma e outra vez. Mas não esperava que em apenas 40 anos se cometessem os mesmos erros tantas vezes seguidas. Sinto-me preocupada. Não quero, mas sinto. Afinal, é neste país que vivo. É neste país que me vejo obrigada a concorrer a call centers - porque são os únicos sítios que chamam - onde se ganha misérias e tem que se aguentar a pressão até ao caralho mais velho. É neste país que me vejo obrigada a terminar um curso superior para conseguir uma carreira a sério visto que dão mais valor a um diploma do que a experiência e valor. É neste país que me vejo obrigada a desistir de uma carreira em qualquer área que eu goste porque ser bailarina, escritora, fotografa ou cantora não me vai pagar as contas. Mas nesta altura do campeonato também me pergunto: qual é o país que não tem os seus problemas? Se ele existir, por favor... Eu mudo-me já para lá! Abandono a minha família e os meus amigos para poder concretizar todos os meus sonhos e viver de maneira mais descansada - ou então não. Tantos condicionantes, tantas limitações... Um leque de escolhas à minha frente que, no fundo, é apenas uma ilusão. 

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