domingo, 17 de janeiro de 2016

Esta sou eu. A rapariga que durante vinte e dois anos se fechou no seu quarto, entre quatro paredes a tentar perceber quem era e para onde devia ir. A rapariga que se apercebeu que o seu caminho devia ser feito na Tua companhia. A rapariga que não pensou duas vezes em abraçar as mudanças de duzentos e quarenta graus na sua vida para poder estar contigo a toda a hora. Não me conheces assim há tanto tempo, portanto não conheces a Sara-antes-do-João. As coisas eram feitas à minha maneira e ponto final. As únicas excepções foram os anos que eu fiquei na faculdade contra a minha vontade e todas as situações que nasceram a partir daí. De resto, ou me acompanhavam ou ficavam para trás. Cansada de ser deixada em segundo, terceiro e quarto plano, parei de me preocupar com os outros primeiro. Se ninguém me colocava no topo da pirâmide, eu mesma teria que o fazer. Quando isso começou a acontecer chamaram-me de fria, egoísta, egocêntrica, mimada. Mas a verdade é que as coisas eram finalmente feitas à minha maneira. Se eu queria assim e não existiam razões para não ser assim, então era bom que o fosse e rápido. Tornei-me impaciente. Cansada de esperar pelos outros e de simplesmente ser abandonada, decidi que seria eu a primeira a abandonar a partir de certa altura. E foi isso que aconteceu. Quando não me conseguiam acompanhar na minha caminhada, levavam alguns avisos. Se depois dos diversos avisos continuavam a afundar-se e a querer levar-me atrás, eu simplesmente saía do buraco sozinha. Comecei a encarar essa minha maneira de ser como a lei do mais forte. Ou tinhas pedalada para a vida e fazias o melhor que conseguias dela ou simplesmente ficavas para trás e eu continuava a correr. Sempre com as minhas dúvidas, sempre sem saber para onde caminhava; mas ao menos não ficava parada no tempo.
Depois de ti, a Sara mudou. Ela já não se fechava no quarto; ela preferia enfiar-se no carro contigo e simplesmente viajar sem rumo pela cidade que vos acolhia. Ela já não fazia tudo à sua maneira. Consciente do quanto feliz te queria fazer, deixou maus hábitos para trás. Por vezes não queria sair de casa e simplesmente ficar na cama, mas tu pedias-lhe para ela ir contigo. E ela ia. E não te tratava mal por causa disso. Simplesmente ia e aceitava a tua companhia, que era a única coisa boa que advinha daquela viagem que ela não queria fazer. De repente, as responsabilidades chegaram. Para quem não fazia nada, uma onda de tarefas chegou e quase que a afundou. Mas ela lá limpava o chão, estendia a roupa, passava a ferro, cozinhava de vez em quando... Preferia estar na cama ou no computador, a ver um filme e a preguiçar contigo, mas ela sabia o que tinha de fazer e fazia-lo. A Sara estava habituada a estar em casa mas começou a seguir-te para todo o lado. Estava também habituada a que tu lhe desses a tua total atenção, mas começou a partilhar-te com outras pessoas. Ela só precisava de ti. E queria que tu só precisasses dela. Mas as coisas não são assim. A Sara morre de medo que tu te vás embora. Que um dia acordes, olhes para ao lado e percebas que estás a desperdiçar a tua vida com ela. Que encontres alguém mais interessante, alguém que se ria de todas as tuas piadas e que te limpe a casa, que cozinhe frequentemente e que não esteja constantemente a pedir-te sexo. Alguém que não seja eu. A Sara. E ver-te infeliz com a Sara que eu sou é a pior coisa que me está a acontecer. Ver que aquilo que eu sou não te satisfaz, não te completa, não te chega... Quantas mais Saras precisarás tu? Se calhar não precisas de nenhuma. Se calhar eu fazia-te um favor se me fosse simplesmente embora. Mas deixar-te é o mesmo que morrer.

O dia em que eu te deixar vai ser o dia em que eu aceitei o meu destino. E nunca mais me verás. Nunca mais cheirarás a minha pele ou nunca mais tocarás no meu cabelo. No dia em que eu te deixar, o meu coração vai deixar de bater. Mas ao menos tu vais ser feliz pois esta Sara nunca será o suficiente para ti.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A chuva está a cair lá fora. Consigo ouvir as gotas a baterem no telhado e no chão da varanda. O som acalma-me mas não o suficiente. Nos dias que correm é praticamente impossível relaxar. Estou em constante guerra comigo mesma. Antigamente não era necessário batalhar. Antigamente, mesmo odiando certas partes de mim, era fácil ser quem sou e os meus problemas eram sempre exteriores à minha essência. Agora tudo se revolta dentro de mim. Vejo-o a dormir ao meu lado tão tranquilamente que só me apetece chorar. Como consegue ele amar uma criatura como eu? Quando me sinto à deriva, não consigo olhá-lo nos olhos. Quando me estou prestes a perder, não consigo manter-me nos seus braços. Irrito-me com pequenas coisas, sinto ciúmes de tudo e de todos, afasto-me de todos os que me querem bem. Só não me afasto dele porque ele não me deixa. Mas o que fazer quando sentimos que não servimos para nada? Que toda a gente estaria melhor sem a minha presença? Que ele estaria mais feliz se amasse outra mulher que não eu? Uma mulher que não arranjasse qualquer pretexto para discutir, que não levantasse a voz quando as coisas não são feitas à sua maneira, que não estivesse constantemente a pensar no seu passado e no seu futuro. Depressiva e ansiosa. Nunca em paz consigo mesma. Nunca tranquila. Sempre sedenta da sua atenção. Do seu toque. Do seu olhar. Do seu beijo. E consciente de que se continuar nesta batalha há-de chegar o dia em que ele não vai ter mais forças para aguentar todas as frentes sozinho.
E a pior parte é que quero mudar e não consigo. Luto contra as minhas próprias birras e tento fazer o que qualquer mulher decente faria. Tento passar a ferro no meu intervalo de almoço e fazer o jantar para ele poder dormir mais algumas horas. Tento fazer-lhe certas vontades que não estavam nos meus planos e acabo mesmo por cancelar tudo o que queria fazer para apenas vê-lo descansado e agradado com o longo dia que vai ter na cama, na minha companhia. Queres ver um filme? Vamos ver um filme. Queres deitar-te no meu colo? Deita-te no meu colo, eu faço-te festinhas no cabelo. Queres ignorar todas as tarefas que temos cá em casa por fazer? Ignora-as que eu entro na preguiça contigo. Mas eu sinto que isto não chega. Onde está aquela Sara que estava lá para apoiar o homem que ama em qualquer situação? Que se preocupava mais com o seu bem-estar do que com o meu? Aquela Sara que em vez de se sentar em frente ao computador aborrecida, se deitaria ao lado dele à espera que ele se sentisse melhor. Que o abraçaria nos momentos mais difíceis. Na verdade, que abraçaria qualquer amigo nos momentos mais difíceis. Agora já nem sequer quero abraçar ninguém. Quero toda a gente longe de mim. Longe do que é meu. Pois eu estou consciente da merda que sou e da facilidade com pode desaparecer a única preciosidade que ainda tenho: Ele. E no entanto continuo a pedir-lhe para fazer o jantar de vez em quando, para limpar a casa quando tiver tempo, para jogar o jogo que eu quero. Para me fazer as vontades. Para me foder quando eu quero. Eu, eu, eu... E mesmo assim nunca me sinto eu mesma. Não sei o que fazer. Desaparecer é provavelmente a opção mais correcta. Mas assim a outra Sara vencia. Mas talvez todos ficassem mais felizes. Portanto, tentar vencer ou simplesmente desistir?