Esta sou eu. A rapariga que durante vinte e dois anos se fechou no seu quarto, entre quatro paredes a tentar perceber quem era e para onde devia ir. A rapariga que se apercebeu que o seu caminho devia ser feito na Tua companhia. A rapariga que não pensou duas vezes em abraçar as mudanças de duzentos e quarenta graus na sua vida para poder estar contigo a toda a hora. Não me conheces assim há tanto tempo, portanto não conheces a Sara-antes-do-João. As coisas eram feitas à minha maneira e ponto final. As únicas excepções foram os anos que eu fiquei na faculdade contra a minha vontade e todas as situações que nasceram a partir daí. De resto, ou me acompanhavam ou ficavam para trás. Cansada de ser deixada em segundo, terceiro e quarto plano, parei de me preocupar com os outros primeiro. Se ninguém me colocava no topo da pirâmide, eu mesma teria que o fazer. Quando isso começou a acontecer chamaram-me de fria, egoísta, egocêntrica, mimada. Mas a verdade é que as coisas eram finalmente feitas à minha maneira. Se eu queria assim e não existiam razões para não ser assim, então era bom que o fosse e rápido. Tornei-me impaciente. Cansada de esperar pelos outros e de simplesmente ser abandonada, decidi que seria eu a primeira a abandonar a partir de certa altura. E foi isso que aconteceu. Quando não me conseguiam acompanhar na minha caminhada, levavam alguns avisos. Se depois dos diversos avisos continuavam a afundar-se e a querer levar-me atrás, eu simplesmente saía do buraco sozinha. Comecei a encarar essa minha maneira de ser como a lei do mais forte. Ou tinhas pedalada para a vida e fazias o melhor que conseguias dela ou simplesmente ficavas para trás e eu continuava a correr. Sempre com as minhas dúvidas, sempre sem saber para onde caminhava; mas ao menos não ficava parada no tempo.
Depois de ti, a Sara mudou. Ela já não se fechava no quarto; ela preferia enfiar-se no carro contigo e simplesmente viajar sem rumo pela cidade que vos acolhia. Ela já não fazia tudo à sua maneira. Consciente do quanto feliz te queria fazer, deixou maus hábitos para trás. Por vezes não queria sair de casa e simplesmente ficar na cama, mas tu pedias-lhe para ela ir contigo. E ela ia. E não te tratava mal por causa disso. Simplesmente ia e aceitava a tua companhia, que era a única coisa boa que advinha daquela viagem que ela não queria fazer. De repente, as responsabilidades chegaram. Para quem não fazia nada, uma onda de tarefas chegou e quase que a afundou. Mas ela lá limpava o chão, estendia a roupa, passava a ferro, cozinhava de vez em quando... Preferia estar na cama ou no computador, a ver um filme e a preguiçar contigo, mas ela sabia o que tinha de fazer e fazia-lo. A Sara estava habituada a estar em casa mas começou a seguir-te para todo o lado. Estava também habituada a que tu lhe desses a tua total atenção, mas começou a partilhar-te com outras pessoas. Ela só precisava de ti. E queria que tu só precisasses dela. Mas as coisas não são assim. A Sara morre de medo que tu te vás embora. Que um dia acordes, olhes para ao lado e percebas que estás a desperdiçar a tua vida com ela. Que encontres alguém mais interessante, alguém que se ria de todas as tuas piadas e que te limpe a casa, que cozinhe frequentemente e que não esteja constantemente a pedir-te sexo. Alguém que não seja eu. A Sara. E ver-te infeliz com a Sara que eu sou é a pior coisa que me está a acontecer. Ver que aquilo que eu sou não te satisfaz, não te completa, não te chega... Quantas mais Saras precisarás tu? Se calhar não precisas de nenhuma. Se calhar eu fazia-te um favor se me fosse simplesmente embora. Mas deixar-te é o mesmo que morrer.
O dia em que eu te deixar vai ser o dia em que eu aceitei o meu destino. E nunca mais me verás. Nunca mais cheirarás a minha pele ou nunca mais tocarás no meu cabelo. No dia em que eu te deixar, o meu coração vai deixar de bater. Mas ao menos tu vais ser feliz pois esta Sara nunca será o suficiente para ti.
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