Eu sei que existem certos alicerces que nunca estão completamente seguros. Quando aceitei, mesmo que em silêncio, ser colaboradora de alguém sem ter contracto sabia que mais tarde ou mais cedo essa decisão viria bater-me à porta com um machado na mão. Não sabia qual seria a ameaça mas pensei "Eu preciso do dinheiro e de momento mais ninguém me quer." Acabei por fazer aquilo que todos os outros Portugueses fazem: conformam-se com o que têm. Mas a esperança, naquela altura, já estava mesmo a começar a desaparecer. Até cheguei a pensar que fosse um presente dos deuses - se calhar continua a ser, mas temporário. Se nem o Continente, o ALDI ou o McDonalds me querem a trabalhar com eles, ou eu tenho um CV horrível, ou sou muito má com entrevistas; ou então estou destinada a outras coisas maiores. Foi assim que pensei quando me surgiu esta oportunidade, daí tê-la agarrado com unhas e dentes. Mas entretanto alguém me bateu à porta com o machado na mão. Tuberculose. Sim, essa doença ainda existe nos tempos de hoje e é a segunda doença mais comum em Portugal. E o pai do João apanhou-a, pela segunda vez. Não posso deixar de referir que me sinto zangada com ele, mais do que o normal. Para além de todas as tarefas que ele não faz no dia-a-dia, decidiu também não mexer o rabo quando os sintomas começaram a aparecer. Deixou-se ficar por meses a tossir repetidamente, continuou a fumar que nem uma chaminé, emagreceu de uma forma rápida e chocante. Mas não, ir ao hospital estava fora de questão. Teve de ser o João a praticamente obrigá-lo, levando-o no carro até Setúbal e deixando-o lá sozinho durante uma tarde inteira sem muito sítio para ir senão as Urgências. Entretanto já os bacilos tiveram mais que tempo para se infiltrar no meu sistema e no do seu filho, contaminando-nos.
Quando a notícia chegou, confesso que nem pensei naquilo que ele teria de passar a partir dali. Mas sim no que eu teria de passar. Eu tinha sido exposta à doença e tinha que ir fazer exames. Disseram-me que, felizmente, não teria que fazer nada de especial, nada que envolvesse agulhas. Quando cheguei ao Centro, desmentiram tal informação. Aí aconteceu o primeiro ataque de pânico. Recusei-me a fazê-lo, mesmo ciente do quão importante era. Afinal, o raio-x aos pulmões poderia dizer-me o resultado exactamente da mesma maneira e isso já não iria mexer com os meus nervos. Assim o fiz. Não deixei que usassem agulhas em mim mas fui fazer o raio-x, já com o corpo a tremer, o coração a bater com demasiada força, a minha mente perturbada a criar diversos cenários. E depois veio a pancada do machado. O meu patrão não me quer na sua loja enquanto eu não souber se estou infectada ou não. Já para não falar que o negócio anda fraco, segundo as suas palavras. O que é certo é que ele continua a viver num apartamento de luxo e tem tudo o que é bom, enquanto que eu estou prestes a mudar-me para uma casa com mais de cem anos por não ter possibilidades para mais - amo a casa, mesmo centenária, amo-a do fundo do meu coração. Mas estamos a remodelá-la há quatro meses e nunca mais vejo a hora de me mudar para lá. Enfim, quatro dias em casa, quatro dias sem receber. Vou saber o resultado dos exames hoje e também o resultado da minha vida como empregada ou desempregada. Não sei se vou estar doente. Não sei se vou estar saudável. Não sei se vou continuar a ser precisa lá. Não sei se vou ficar em casa. O que é certo é que ninguém me quer, novamente. Ninguém me estende a mão com uma boa oportunidade. E a vida vai-me dando marretadas. A última seria, sem dúvida, ir parar a um quarto de isolamento durante meses, doente e sem ninguém, longe de tudo aquilo que amo e acompanhada das vozes na minha cabeça. Tenho medo. Tenho tanto medo.
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