Diogo,
antes de ti a minha vida era relativamente fácil. Tinha tido os meus desamores e amores, a minha dose de lágrimas e corações partidos. Tinha também um sorriso simples e fácil de alcançar. Tudo tinha um sabor diferente. Olhando para trás, era realmente tudo muito fácil.
Depois de ti, começaram a chegar todos os demónios ao mesmo tempo.
Tenho passado muito tempo a tentar compreender em que fase da minha vida é que eu tropecei no buraco em que me encontro de momento. Pensei que talvez tivesse sido quando entrei na faculdade e me vi subitamente tão sozinha. Pensei que foi durante aquele ano em que eu procurei sofregamente por alguém que me completasse como nunca me sentira completa. Pensei que tinha sido tudo minha culpa.
E hoje, não sei porquê, lembrei-me de ti e de tudo o que me fizeste. As coisas boas e as más.
Lembro-me de teres passado o sétimo e o oitavo ano a gozar comigo constantemente. Eu nunca consegui entender se querias ser meu amigo ou se me odiavas. Tanto me falavas mal como depois me beijavas no jogo de Verdade ou Consequência e não parecias enojado. Quando anunciaste que te ias embora, não sei porque fiquei tão sentida. Não me eras nada para além de um puto armado em sabichão que gostava de criticar tudo e todos - especialmente a mim. Depois de te teres ido embora para o Norte é que eu finalmente percebi que era necessário distanciarmo-nos para a nossa amizade desabrochar. Tu eras demasiado imaturo e eu tinha mais com que me preocupar. Aturar-te todos os dias não fazia parte da minha agenda e estava tudo bem assim. E devia ter continuado assim. Infelizmente, tu conseguiste fazer comigo aquilo que sempre fizeste com toda a gente: sugaste-me para dentro dessa tua bolha de ilusões tão bem construída.
Chamei-te de melhor amigo. Ansiei pelas tuas visitas. Quando vieste, beijaste-me e fizeste-me jurar que não contávamos nada aos nossos namorados. Pobre Rúben que naquela altura era simplesmente uma criança e teve que passar por todo o mal que eu lhe fiz. Quanto à tua Bábá, não faço a mínima ideia de como ela ficou nem nunca me importei. Mas importei-me bastante com o facto de, mais uma vez, me teres manipulado. Pediste que ficássemos amantes em segredo. Enquanto magoávamos terceiros quando nos encontrávamos, fingíamos que estava tudo bem quando estávamos separados.
Um dia foi demasiado difícil para mim continuar a fingir. Contei tudo ao Rúben e odiei-me por o ter magoado de maneira tão fria e indelicada. Decidi que queria ficar contigo e ponto final. E fiquei. Durante pouco tempo, mas fiquei. Esse pouco tempo foi literalmente a primeira vez que eu me senti feliz com alguém. Andava nas nuvens, nada nem ninguém me preocupava. Somente tu, que estavas longe e eu queria estar contigo. Quando me vinhas visitar, parecia Natal outra vez. Aquele Natal em que ainda somos crianças e sabemos que ao acordar vamos ter imensos presentes embrulhados à nossa espera para os abrirmos e espalhar tudo pelo chão. Agora, olhando para trás, vejo como realmente esses tempos foram para ti: uma colheita de miúdas novas e inexperientes para tu tomares conta e magoares. Apresentei-te às minhas amigas. Exibi-te a toda a gente, orgulhosa do rapaz que tinha ao meu lado. E tu, mesmo à minha frente, colheste-as todas. O número desta, a atenção da outra. O e-mail da seguinte. E quando não estavas comigo, falavas com todas. Manipulavas a mente de todas. Todas elas se sentiam especiais para ti. Promessas e promessas atrás uma das outras mesmo à minha frente, mesmo quando eu finalmente te confrontei e te disse "Mostra-me essas mensagens!" E a maneira como tu me deste a volta para depois simplesmente fingires que ainda me amavas e me tocares como nunca ninguém me tocara.
E depois a notícia. Nunca cheguei a perceber quais as tuas intenções. Até hoje. Estavas a estudar o mercado, penso eu. À procura daquela que te daria mais facilmente aquilo que querias. Pensaste que essa pessoa seria eu. Fizemos coisas que eu nunca tinha sequer pensado em fazer com ninguém portanto estiveste bastante lá perto, não foi? Mas eu não chegava. Ou não era demasiado bonita, ou demasiado interessante, ou demasiado sei-lá-o-que-estavas-à-espera-de-mim. E ainda bem que não era. Depois de passares uma semana inteira comigo, a fazer juras de amor que quase podiam fazer parte de um filme do Nicholas Spark - e olha que eu não acho os livros dele nada de especial, são sempre iguais - voltaste para o Norte e simplesmente acabaste comigo por mensagem. Para quê? Para no dia seguinte estares a namorar com a minha melhor amiga.
Nessa altura pensei que estava o mais infeliz que alguma vez pudesse estar. As duas pessoas em quem eu mais confiava tinham-me traído. Mas o pior veio a seguir: o ano inteiro em que tu me ameaçaste e corroeste a alma. Um ano inteiro em que viraste toda a gente contra mim, em que me ligaste a insultar-me noites seguidas, em que fizeste pessoas mandarem-me e-mails a insultarem. Feia. Puta. Desinteressante. Horrível. Caixa de óculos. Puta. Puta. Puta. Depois de ouvir os mesmos insultos durante tanto tempo e ditos por tanta gente, eu comecei a acreditar neles. Foi aí que tu me destruíste. Gostava de dizer que fui forte o suficiente mas não fui. Tu realmente conseguiste fazer o que querias: destruir-me.
Foi aí que eu caí no buraco. Encontro-me rodeada pelos demónios. Às vezes eles nem sequer se dão ao trabalho de me chatear. Mas quando as coisas estão sérias... Quando as coisas estão sérias, eles nem sequer me deixam dormir. Sussurram-me ao ouvido coisas. Agarram-me os cabelos e fazem-me ver traições onde elas nem sequer existem. E eu vou cavando, cavando, cavando... Puta, feia, horrível, desinteressante. Porque é que alguém haveria de te amar a ti? Porque é que alguém te iria querer para sempre na sua vida? Claro que vai haver sempre melhor. Claro que vais acabar sempre por ser abandonada. Claro que aquelas raparigas com quem o João fala vão ser as suas futuras amantes.
Diogo, antes de ti eu era inocente. Depois de ti, foi-se tudo com o caralho. E, afinal, a culpada sou eu. Por ter deixado alguém me quebrar da maneira que tu quebraste. Por te odiar ao ponto de querer que sofras o triplo do que me fizeste sofrer. Por esperar que todas aquelas que corrompeste um dia te vejam pelo verdadeiro escorpião que és.
Era assim que tinha de ser. Era assim que tinha de acontecer. Só espero um dia conseguir ignorar os demónios e simplesmente ser feliz e aproveitar aquilo que tenho sem estar constantemente com medo que tudo se desvaneça por entre os meus dedos, como já tantas vezes aconteceu. Nessas vezes, eu penso sempre: o Diogo tinha razão.
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