Já não consigo distinguir o que é real e o que não é. Sei as memórias que desenterrei da minha alma. Sei que outrora fui alguém que se sentava numa mesa redonda na companhia da sua família. Que, juntos, praticávamos magia negra e branca; que, juntos, mudámos o mundo. Que nos queriam queimar vivos e nós simplesmente nos ríamos enquanto bebíamos o absinto e fumávamos o ópio. Tínhamos os deuses do nosso lado. Nem sempre eram aqueles que a sociedade - tanto agora como antigamente - considerava aceitáveis, mas tínhamos. As nossas vidas eram curtas. No entanto, nesse piscar de olhos aprendíamos tudo o que conseguíamos, mostrávamos o quão poderosos éramos, ajudávamos quem tínhamos que ajudar, encontrávamo-nos uns aos outros. Amámo-nos mutuamente. Magoámo-nos mutuamente. Matámo-nos mutuamente. Rasgámos pele, músculo e órgãos. Triturámos ossos só com as mãos. Lutámos no meio da sujidade a que hoje em dia se chama humanidade. Caímos do Céu, levantámo-nos no Inferno. Governámos o Purgatório e cometemos erros uns atrás dos outros. Ajudámos almas penadas a fazerem a sua passagem. Fomos comidos por dentro pelas suas histórias e pela maneira como nos tocavam. Atirámo-nos de penhascos. Morremos de peste. Enforcámo-nos. Lutámos com e contra Dragões. Lutámos contra a nossa própria família.
Será esta a nossa luta, desta vez? Nesta vida, no meio de toda a tecnologia e evolução, estaremos nós condenados a simplesmente vermo-nos uns aos outros pelas costas e fingir que só existimos quando precisamos? Interesseiros. Falsos. Onde está aquele sentimento que me deram? Porque é que me ofereceram algo para agora o retirar com tanta crueldade? Porque é que fingiram que a família valia tudo quando os vossos egos são tão mais importantes?
Já não consigo distinguir o que é real e o que não é. Eu sinto-a dentro de mim, tal como sinto todos os outros. Sei que estou bloqueada de diversas maneiras e que o desbloqueio depende somente de mim. No entanto, sinto-me sozinha. Abandonada pela minha própria alcateia. Terei sido eu considerada a mais fraca, a enferma, aquela que tem de ser deixada para trás por não ter o mesmo ritmo que os outros? Porque é que algo me diz que isto já aconteceu outras vezes? Porque é que me sinto tão enganada? Porque é que naquela noite sonhei que um dragão me despedaçava e se ria de mim? Porque é que quando abri os olhos senti que a minha família me iria despedaçar?
Já o está a fazer. Não sei com quem posso contar. Com o quê. Nem sei se os deuses continuam do meu lado como antigamente. Se calhar só se riem de mim. Riem-se e regojizam-se com o meu sofrimento. Com os objectivos que eu nunca vou conseguir cumprir. Com a minha eterna sentença no meio de humanos cada vez mais estúpidos e robotizados. Riem-se com os contractos que eu sou obrigada a assinar antes de voltar a renascer, antes de voltar a ocupar um corpo feito de carne e osso. "Lá vai ela outra vez... Lá vai ela sofrer outra vez... Ser deixada de parte."
Porque é que esta vida, que se está a tornar tão longa em comparação às outras, se observa tão pequena? Tão curta em conhecimentos. Em práticas. Em acções. Nem uma chama do fogo consigo mover. A única coisa que me mantém presa a este mundo é todos aqueles rostos e corpos desfigurados que me visitavam. As suas mãos a agarrarem-me, a pedirem-me ajuda. "Onde estamos?" Inconscientes da sua morte. Ou então demasiado conscientes e prontos a me torturarem até ao ponto de eu não conseguir dormir. A cama a tremer. O meu corpo gelado. O meu pai fechado na cozinha e os seus gritos de desespero. E eu sem conseguir falar, andar... ou até respirar. Inútil. Talvez será isso que eu vou ser a minha vida toda. Uma inútil que já nem a sua Arte sabe praticar. Wiccan. Bruxa. Que tal simplesmente uma inútil que nem sequer se sabe proteger a si e aos seus? Que é deixada para trás pela sua própria espécie?
Despejada. Mas tão cheia de raiva e angústia. Vazia. Mas tão inchada pelo seu orgulho ferido. Porquê. Já não sei o que faz sentido. Apenas a escuridão e os seus braços me mantêm acordada e atenta ao que me rodeia. Quero-me afogar nos braços da minha amiga de longa data. Quero que ela me leve para um sítio onde eles me aceitem de volta. Mas depois lembro-me: lá fora eles continuam a ser os mesmos. Continuam a odiar-me. Já não consigo entender. Já não sei se quero viver ou morrer. Sempre abandonada. O Dragão consome-me por dentro. Cada vez sinto que é cada vez mais fácil deixar pedaços de mim por aqui e por ali. Já não sei quem sou. Inteira. Em partes. Não sei.
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