A chuva está a cair lá fora. Consigo ouvir as gotas a baterem no telhado e no chão da varanda. O som acalma-me mas não o suficiente. Nos dias que correm é praticamente impossível relaxar. Estou em constante guerra comigo mesma. Antigamente não era necessário batalhar. Antigamente, mesmo odiando certas partes de mim, era fácil ser quem sou e os meus problemas eram sempre exteriores à minha essência. Agora tudo se revolta dentro de mim. Vejo-o a dormir ao meu lado tão tranquilamente que só me apetece chorar. Como consegue ele amar uma criatura como eu? Quando me sinto à deriva, não consigo olhá-lo nos olhos. Quando me estou prestes a perder, não consigo manter-me nos seus braços. Irrito-me com pequenas coisas, sinto ciúmes de tudo e de todos, afasto-me de todos os que me querem bem. Só não me afasto dele porque ele não me deixa. Mas o que fazer quando sentimos que não servimos para nada? Que toda a gente estaria melhor sem a minha presença? Que ele estaria mais feliz se amasse outra mulher que não eu? Uma mulher que não arranjasse qualquer pretexto para discutir, que não levantasse a voz quando as coisas não são feitas à sua maneira, que não estivesse constantemente a pensar no seu passado e no seu futuro. Depressiva e ansiosa. Nunca em paz consigo mesma. Nunca tranquila. Sempre sedenta da sua atenção. Do seu toque. Do seu olhar. Do seu beijo. E consciente de que se continuar nesta batalha há-de chegar o dia em que ele não vai ter mais forças para aguentar todas as frentes sozinho.
E a pior parte é que quero mudar e não consigo. Luto contra as minhas próprias birras e tento fazer o que qualquer mulher decente faria. Tento passar a ferro no meu intervalo de almoço e fazer o jantar para ele poder dormir mais algumas horas. Tento fazer-lhe certas vontades que não estavam nos meus planos e acabo mesmo por cancelar tudo o que queria fazer para apenas vê-lo descansado e agradado com o longo dia que vai ter na cama, na minha companhia. Queres ver um filme? Vamos ver um filme. Queres deitar-te no meu colo? Deita-te no meu colo, eu faço-te festinhas no cabelo. Queres ignorar todas as tarefas que temos cá em casa por fazer? Ignora-as que eu entro na preguiça contigo. Mas eu sinto que isto não chega. Onde está aquela Sara que estava lá para apoiar o homem que ama em qualquer situação? Que se preocupava mais com o seu bem-estar do que com o meu? Aquela Sara que em vez de se sentar em frente ao computador aborrecida, se deitaria ao lado dele à espera que ele se sentisse melhor. Que o abraçaria nos momentos mais difíceis. Na verdade, que abraçaria qualquer amigo nos momentos mais difíceis. Agora já nem sequer quero abraçar ninguém. Quero toda a gente longe de mim. Longe do que é meu. Pois eu estou consciente da merda que sou e da facilidade com pode desaparecer a única preciosidade que ainda tenho: Ele. E no entanto continuo a pedir-lhe para fazer o jantar de vez em quando, para limpar a casa quando tiver tempo, para jogar o jogo que eu quero. Para me fazer as vontades. Para me foder quando eu quero. Eu, eu, eu... E mesmo assim nunca me sinto eu mesma. Não sei o que fazer. Desaparecer é provavelmente a opção mais correcta. Mas assim a outra Sara vencia. Mas talvez todos ficassem mais felizes. Portanto, tentar vencer ou simplesmente desistir?
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