quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ain't nobody loves me better than you...

"Acredita que não há um dia em que eu não agradeça aos deuses por te ter." disse eu, enquanto abraçava o João e lhe mexia no cabelo de forma carinhosa. Meio deitados na cama, ele tinha a sua cabeça encostada ao meu peito e mordia-me os mamilos para depois sorrir daquela sua maneira traquina.

Hoje é dia - ou noite - de escrever acerca de coisas que me fazem feliz. Hoje é dia de deixar o pessimismo um pouco de parte e sorrir perante todas as alegrias que tenho vivido ultimamente nos últimos quatro meses.
Depois daquele dia em que eu me deixei deprimir devido ao pouco dinheiro que eu e o João tínhamos, acordei na minha cama gigante com uma chamada dele. Ele tinha ido trabalhar de manhã cedo, como sempre, e não era natural ligar-me aquela hora. Um pouco atarantada, atendi o telemóvel e recebi uma das melhores notícias dos últimos tempos: ele fora aceite numa nova empresa onde ia ganhar mais e também trabalhar na sua área, deixando assim o trabalho de escravo que tinha de fazer todos os dias apenas para ganhar o salário mínimo. Nessa noite, infelizmente, não pudemos festejar pois a minha menstruação chegou e com ela chegaram também as dores infernais. Mas alguns dias depois ele informou-me que iria ter umas mini férias. Visto que a nova empresa o queria a trabalhar a partir de dia 1 de Outubro, ele iria estar Sábado, Domingo, Segunda, Terça e Quarta-Feira em casa comigo. "Para te dedicar algum tempo..." justificou-se ele. E assim o fez. No Sábado dormimos até tarde e aproveitámos a companhia um do outro, indo depois jantar a casa da mãe dele. No Domingo foi a vez de irmos almoçar a casa dos meus pais, onde passámos algumas horas também a ver um concerto dos Muse ao vivo no ecrã gigante da sala do meu pai. Depois disso, conversámos durante algumas horas como já não fazíamos há algum tempo. Ultimamente parecia que existia pouco tempo para conversar mas esse sentimento desvaneceu-se rapidamente. No meio de algumas ideias tempestuosas e alguns conflitos de opiniões, senti-me a renascer nos seus braços e nos seus beijos novamente. O resto da tarde foi passada na Feira Medieval da terrinha, onde comemos crepes com Nutella, comprei um finalmente um underbust - que me fica terrivelmente bem - e um choker lindíssimo que imediatamente me fez pensar no meu clã. Bebemos também uma sangria de mirtilos num copo de barro muito engraçado que fumegava por todos os lados, já para não falar nas bandas e todo aquele entretenimento que nos rodeava. Toda a energia que tinha perdido na última semana foi completamente reposta no Domingo, sem dúvida alguma. Senti-me em casa, senti-me segura.

Segunda, Terça e Quarta passaram num instante. Entre filmes, episódios de séries, arrumar a casa, passear, fazer compras, levar o carro ao mecânico... O tempo passou e eu nem dei por ele a passar por mim. Ontem, Quarta-Feira, ainda fomos ao centro comercial buscar as nossas alianças que estavam encomendadas há cerca de quinze dias. Quando ele colocou a minha no meu dedo, não pude deixar de sorrir e estremecer por dentro. "Agora és oficialmente minha." disse ele. Claro que não são precisas quaisquer tipo de alianças ou objectos para eu ser completa e totalmente dele. E ele sabe disso. Ao fim da tarde ainda acabámos por comprar alguns brinquedos para nos divertirmos na cama - ou noutro sítio qualquer - e agora encontro-me aqui, em frente ao ecrã do portátil, com as suas costas tatuadas viradas para mim e a sua respiração pesada como música de fundo. E dou por mim a pensar: posso estar desempregada, posso não ter conquistado tudo aquilo que queria até agora, posso focar-me em todas as coisas más que me acontecem... Mas uma coisa não me posso esquecer: nos próximos tempos irei sempre acordar e adormecer ao lado da pessoa que mais amo e isso ninguém me pode tirar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cut my life into pieces, this is my last resort...

"Achas que devo pedir à minha mãe uma mesada enquanto estiver desempregada?" perguntei eu.
"Se ela nunca te deu uma, porque é que haveria de dar uma agora que estás a viver fora da casa dela?" respondeu o João. "Eu prometo que tudo vai ficar bem. Deixa isso comigo."

O problema é esse, exactamente: deixar isso contigo.

Quando era pequenina queria ser cardiologista. Aliás, médica do coração. Sempre estive ciente de que o meu avô tem muitos problemas de coração e que já esteve às portas da morte várias vezes. Portanto, o meu sonho era curá-lo. Na minha cabeça, se eu me tornasse a sua médica do coração, ele nunca mais teria qualquer tipo de problemas. Entretanto fui-me apercebendo que as coisas não eram bem assim. Para além de o problema não ser a falta de competência dos médicos que foram tratando do meu avô ao longo dos anos - aliás, até foram óptimos porque depois de não sei quantos ataques cardíacos, enfartes e, mais recentemente, um cancro nos intestinos, ele continua vivo e forte - cheguei também à conclusão que ser médica não me estava destinado. Quando era pequenina gostava muito de ir a hospitais. Gostava do cheiro e sabia que, quando saísse de lá, me iria sentir melhor. Era uma solução fácil e simples. Foi no meu dia de anos, dia 25 de Junho de 2000, que as coisas mudaram radicalmente para mim. Já andava há alguns meses a queixar-me de dores de ouvidos e a minha mãe já me levara ao hospital diversas vezes. Amoleceram-me a cera, limparam-me os ouvidos (a dor foi horrível), deram-me antibióticos, anti-inflamatórios, blá blá blá. Mas na noite de 24 para 25 de Junho não consegui dormir nada com tantas dores que tinha. Na manhã seguinte, não consegui aguentar mais e pedi aos meus avós para irmos embora. Estávamos a acampar e eles, à pressa, desmontaram tudo e levaram-me para casa. Quando cheguei ao hospital, fizeram-me tudo e mais alguma coisa. Não me recordo de tudo porque as minhas dores faziam com que eu desmaiasse e acabasse por dormir o dia todo. Mas lembro-me de um exame em específico que mudou o resto da minha vida. Os médicos pensaram que eu tinha meningite e decidiram fazer-me uma punção lombar. Infelizmente, decidiram que uma estagiária iria tratar do assunto, tornando-me num objecto de estudo. Ela tentou o procedimento duas vezes seguidas. Uma agulha grossa e enorme a ser espetada nas minhas costas, uma dor excruciante que me fazia saltar com espasmos e gritar; os médicos a segurarem-me e a pedirem-me para ficar quieta e eu a sentir que ia morrer naquela maca. "Ela está seca." dizia a estagiária enquanto me voltava a espetar a agulha. Depois disso foi necessário a minha mãe entrar na sala à força e perguntar o que raio estavam a fazer à sua filha para eles finalmente afastarem a estagiária e chamarem uma médica a sério. Essa médica fez-me o exame à primeira. Depois disso, voltei a adormecer e a cair na escuridão.

Depois deste episódio infeliz fiquei com medo de agulhas, de exames, de médicos, de hospitais... Portanto, estava fora de questão tornar-me uma cardiologista. Além disso, as médias no secundário e nas faculdades eram demasiado altas e eu não queria passar a minha adolescência de nariz enfiado nos livros. Foi então que descobri a dança. Comecei com umas brincadeiras na escola primária, para depois ir para um Ballet infantil, seguido de Dança do Ventre. Quando finalmente me apercebi que a dança era muito mais importante para mim do que eu imaginava, já eu contava com 13 anos e já tinha o corpo diferente do que aquele que devia ter para me tornar numa bailarina profissional. Mas eu não desisti. Fui à mesma para o Ballet "a sério", fiz todos os exames através da Royal Academy of Dance, distingui-me no meio de bailarinas que já lá estavam desde os 3 anos de idade, e no entanto... Todas as audições a que fui, todas as lutas que lutei, nunca foram suficientes. Acabei sempre por ficar a ver navios. E finalmente meti na cabeça que a dança só poderia ser apenas um hobbie e não uma carreira, para minha infelicidade.

Mas eu tinha um plano B. Desde pequenina que adoro ler e escrever. Por isso, porquê não me tornar uma escritora? Entretanto apercebi-me que também gostava de traduzir e editar textos. Era tudo tão simples, a resposta estava mesmo ali à minha frente! Quando chegou a hora de fazer alguma coisa, dei um passo em falso. Não sei se foi o curso que era o errado, se era a faculdade, se era simplesmente o timing... Mas tudo correu mal. As aulas eram todas aborrecidas, os professores preferiam falar da sua vida do que dar aulas universitárias, as praxes foram uma desilusão gigante, amigos contava-os em apenas uma mão, a solidão e a desmotivação mordiam-me e aproximavam-se a pouco e pouco. E a minha mãe não me deixou mudar de curso quando eu lhe pedi a primeira vez. Para além disso, este não era um curso universitário igual aos outros. Eu não podia simplesmente faltar às aulas e ir aos exames - se pudesse, tinha-o feito talvez em apenas três anos e agora já estava despachada. Não! As aulas eram obrigatórias, apresentações orais, dois testes por semestre, ensino secundário all over again... Mas ao menos no secundário os professores estavam preocupados em ensinar-nos alguma coisa. E ali... Ali estavam simplesmente a gozar com a nossa cara enquanto pagávamos propinas de 1000 e tal euros por ano já para não falar em passes e alimentação. Sentia-me num beco sem saída. E não queria desiludir ninguém. Tanta força fiz para continuar que um dia simplesmente não aguentei mais e sofri um esgotamento nervoso que me levou a desistir de tudo. Cancelei a minha matrícula, cancelei a minha vida inteira. E simplesmente fiquei alguns meses enfiada debaixo dos cobertores, a olhar para o tecto, para o ecrã do computador, a ouvir a vida a passar por mim...

E acho que vou ter de parar por aqui. Amanhã continuo. É melhor.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

I'm going through changes... - II

De carro completamente cheio e uma sensação estranha no peito e no estômago, saí de casa com o João. A meio da viagem apercebi-me que o pai dele só estaria em casa depois de jantar e que ainda teríamos que fazer tempo até podermos ir para lá. Estávamos ainda no fim da tarde, ainda não tínhamos jantado e eu sentia que tinha a minha vida toda empacotada dentro daquele Fiat de 1997. Foi então que tive o meu primeiro ataque de pânico. Eu bem sabia o tempo que demorara a arrumar as coisas todas dentro daquelas malas por isso só conseguia imaginar o tempo que iria demorar a arrumar o meu novo quarto. Para além disso, eu não queria deixar o carro sozinho. Sentia que, se alguma coisa acontecesse, iria perder todos os meus bens materiais. E a melhor parte é que eu nem sequer sou muito materialista em comparação a amigas minhas que iam às compras todas as semanas. Mas naquela tarde quase que pareci uma princesa ofendida por não estar dentro do meu castelo.

O João aturou-me durante quatro horas naquela ansiedade. Para além de ouvir as minhas queixas, ainda me deu a mão e conduziu em silêncio, dando-me o espaço que eu precisava para pensar. Quando chegámos à nossa nova cidade, foi imediatamente a casa da avó buscar mantas e com elas tapou todo e qualquer conteúdo que podia estar à mostra no carro. Na altura só pensava o quão nas vistas aquilo dava - era óbvio que estávamos a esconder alguma coisa ali. Depois disso, com apenas 40€ na conta, levou-me a jantar a um restaurante italiano. Na altura não fazia a mínima ideia do quão curta estava a nossa vida em termos monetários e também não consegui dizer que não a uma boa lasanha. "Eu sei que quando estás a ter um dia mau gostas de comer um bom jantar." disse-me ele, enquanto sorria do outro lado da mesa. Foi só aí que comecei finalmente a acalmar. A verdade é que o meu maior tesouro não era aquele que estava dentro do carro, mas sim aquele homem que me estendia a mão por cima da mesa e olhava para dentro da minha alma.

Quando, depois de várias horas, chegámos a casa do pai dele, tive que ser eu mesma a acalmar a minha ansiedade. Homem solteiro de 50 e tal anos, uma gata e uma casa completamente suja e cheia de tralha. Decidi que não me iria descalçar. Pensar em pisar aquele chão causava-me náuseas. No entanto, para quê queixar-me? Estava ali o exemplo perfeito de tudo o que a minha mãe receava que eu me tornasse. Eu sabia que nunca iria ser assim só de olhar para aquele cenário. Por momentos quis ir buscá-la a casa só para ela me ver a varrer o chão, a esfregá-lo, a arrumar a roupa nos armários, a arrumar as mariquices todas no seu sítio certo, a fazer a cama, a limpar o frigorífico, a ir às compras, a lavar a loiça... Foi assim que se passou o meu fim-de-semana. E em dois dias, a casa parecia outra. A gatinha já se roçava nas minhas pernas enquanto eu caminhava descalça e um pequeno sorriso aparecia nos meus lábios.

Um problema estava resolvido. Outro chegou quando, ao irmos às compras, me apercebi que a nossa conta já ia em 100 e tal euros negativos. Ainda faltava dez dias para o fim do mês e ali estávamos nós: eu desempregada, com uma licenciatura por terminar, à procura de algo que me faça minimamente feliz; e o João a trabalhar numa empresa onde o trabalho físico não pára, as horas extra estão sempre a contar e apenas o ordenado mínimo a cair no final do mês. Foi nessa altura que perguntei a mim mesma "O que construí eu até agora?" Uns quantos livros, uns quantos contos, uns quantos projectos... Algumas capacidades nesta e naquela área. E no entanto continuo a tremer perante a hipótese de voltar à Faculdade de Letras para terminar o meu curso. Tremo, ainda mais, por ter de arranjar um emprego que provavelmente eu nem sequer vou gostar. Tremo, no meu íntimo, tornar-me a minha mãe. Não que ela não seja uma mulher forte e capaz. Mas temo anular a minha vida inteira por causa de alguém, esquecendo-me de mim mesma. Mas ao mesmo tempo vejo o João a esforçar-se todos os dias e penso "És tão egoísta... Faz alguma coisa!" E aqui ando, a tentar compreender e a tentar descobrir o que é que a minha vida vai ser daqui para a frente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

I'm going through changes... - I

"João, segunda-feira estás disponível para me fazer um favor?" perguntou a minha mãe.
"Segunda-feira já cá não estamos, vamos amanhã mudar-nos para casa do meu pai." respondeu o meu namorado. O silêncio invadiu o quarto de paredes cor-de-rosa. "Mas posso ajudar à mesma, é só dizer o que precisa."

A minha mãe costumava perguntar-me porque é que ele tinha que ir dormir lá a casa e porque é que tínhamos que passar tantas horas juntos. Eu dava-lhe a resposta mais sincera de todas e ela mesmo assim não ficava satisfeita. "Porque gostas dele?" repetia ela a seguir, como se não fosse o suficiente. Acredito que cada um tenha uma maneira de amar diferente. Há pessoas mais desapegadas que outras, que preferem ter o seu próprio espaço e a sua independência sem serem incomodadas por segundos ou terceiros. Eu, pelo contrário, gosto de partilhar cada momento da minha vida com a pessoa que amo. Por vezes nem sequer precisamos de estar a conversar ou a olhar um para o outro; basta-me a sua companhia, a sua energia a tocar a minha muito suavemente. Mas explicar isto à minha mãe é praticamente impossível.

O que também é praticamente impossível de explicar é que o ambiente lá em casa não é nada saudável. Casados há mais de trinta anos, eu sempre achei que os meus pais eram considerados os Resistentes enquanto via os pais dos meus amigos a divorciarem-se ou a separarem-se. Sempre me orgulhei da relação que eles tinham e sabia o quão sortuda era por tê-los a ambos na mesma casa. Mas depois cresci e comecei a tomar mais atenção. As pequenas coisas eram as que faziam a maior diferença. Primeiro vi a minha mãe a não comprar uma peça de roupa nova durante anos e anos seguidos, dizendo sempre que ia precisar daquele dinheiro para alguma coisa; passados alguns dias, o meu pai comprava uma aparelhagem ou umas colunas novas. E ela continuava com a mesma roupa velha de sempre. Depois decidiram comprar uma casa no Alentejo. Sei que a minha mãe o acompanhou para todo o lado enquanto andavam a ver casas mas também sei que foi ele que insistiu que precisavam de uma casa de férias. Agora vão lá um fim-de-semana por mês para limpar a casa, gastar dinheiro com ela - porque é uma casa muito antiga e está constantemente a precisar de obras - ou para, uma em vinte vezes, realmente irem passar férias. Férias essas que eles passam mais tempo enfiados em casa a discutir do que realmente a usufruir do tempo livre que têm, passeando por aqui e por ali e experimentando a gastronomia local. Habituados a gerir o pouco dinheiro que tinham quando eram novos e ambos estavam desempregados, tornaram-se num casal perito em poupanças. Almoçar fora? Nem pensar! Ir a Sintra dar uma voltinha? O gasóleo e as portagens estão demasiado caros! Ir ao cinema? Para quê? Vamos esperar que o filme saia na TVI e depois passamos a tarde em casa a vê-lo. Tens frio no Inverno? Paciência, não queremos gastar muito dinheiro em luz portanto não tenhas o aquecedor sempre ligado. Precisas de uns ténis novos? Estás louca? Pára de gastar o meu dinheiro à toa que eu quero ir comprar uns vinis novos e preciso dele.

E depois chegavam os dias melancólicos... Os dias que o meu pai devia passar com a minha mãe, levá-la a passear ou simplesmente valorizar a sua companhia e se ia embora para sair com os amigos, com quem já passava a semana toda. E eu, sozinha em casa com a minha mãe, assistia à sua solidão. Quando me dava a conhecer, gritava comigo por eu não levá-la a lado nenhum. Por algumas vezes disponibilizei-me a ir passear com ela para que isso não acontecesse mas, mais uma vez, cresci. Comecei a construir a minha vida, o meu espaço, o meu círculo de amigos, os meus interesses... E às vezes até tentava incluir a minha mãe nisso tudo mas era impossível. Idades diferentes, gostos diferentes... E depois começaram os choros. Tardes inteiras em que ela gritava e chorava enquanto corria pela casa à procura de algo... Algo que nunca encontrou. Quando o meu pai chegava a casa, completamente à parte de tudo o que se passara durante o dia devido à sua indiferença, as discussões começavam outra vez. Gritos, acusações, tempestades... Energia quebrada e suja a encher-me o corpo de dores excruciantes. Só queria sair dali. Fugir e nunca mais voltar. Não seria tão mais fácil se simplesmente cada um seguisse o seu caminho e parassem de se magoar um ao outro? A primeira vez que o sugeri, a minha mãe ficou tão chocada comigo que só não me pôs de castigo porque sabia que eu já não era nenhuma criança pequenina. E eles lá continuam... Uma roda que gira sempre na mesma direcção, passando sempre pelas mesmas situações, pelos mesmos problemas e sem nunca chegar a uma conclusão, a um fim. Ou a um recomeço. Por isso, desde os meus 17 anos que um dos meus maiores objectivos era sair de casa. Não se trata de não os amar. Não se trata de não os querer perto de mim. Trata-se de manter a minha sanidade mental intacta e o meu foco em assuntos mais importantes e relevantes para a minha felicidade. Confesso que parte da minha felicidade passaria também pela felicidade dos meus pais mas já não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Está tudo nas mãos deles e nenhum deles quer mexer-se e desequilibrar tudo o que já construíram juntos - o que eu compreendo perfeitamente, daí ter arranjado outra maneira de me manter a mim feliz.

Eles nunca acreditavam em mim quando eu dizia que ia sair de casa brevemente. No entanto, no sábado arrumei a minha roupa toda de Verão/Outono em duas malas grandes de viagem, arrumei a minha maquilhagem, alguns livros, o meu computador, a minha máquina fotográfica e segui viagem para casa do pai do João. Nessa noite, a minha mãe não conseguiu dormir. Antes de me ir embora, o meu pai abraçou-me como já não fazia há alguns anos. A minha mãe hesitou ao sair de casa para ir aos anos da filha de uma amiga dela, sabendo que quando voltasse eu já não estaria lá. E em três dias, já me ligou nove vezes, fazendo-me perguntas e pedindo-me indicações para certos assuntos, como se precisasse de mim para seguir a sua vida em frente. E eu? Eu escreverei mais tarde o que se passou comigo.