"Achas que devo pedir à minha mãe uma mesada enquanto estiver desempregada?" perguntei eu.
"Se ela nunca te deu uma, porque é que haveria de dar uma agora que estás a viver fora da casa dela?" respondeu o João. "Eu prometo que tudo vai ficar bem. Deixa isso comigo."
O problema é esse, exactamente: deixar isso contigo.
Quando era pequenina queria ser cardiologista. Aliás, médica do coração. Sempre estive ciente de que o meu avô tem muitos problemas de coração e que já esteve às portas da morte várias vezes. Portanto, o meu sonho era curá-lo. Na minha cabeça, se eu me tornasse a sua médica do coração, ele nunca mais teria qualquer tipo de problemas. Entretanto fui-me apercebendo que as coisas não eram bem assim. Para além de o problema não ser a falta de competência dos médicos que foram tratando do meu avô ao longo dos anos - aliás, até foram óptimos porque depois de não sei quantos ataques cardíacos, enfartes e, mais recentemente, um cancro nos intestinos, ele continua vivo e forte - cheguei também à conclusão que ser médica não me estava destinado. Quando era pequenina gostava muito de ir a hospitais. Gostava do cheiro e sabia que, quando saísse de lá, me iria sentir melhor. Era uma solução fácil e simples. Foi no meu dia de anos, dia 25 de Junho de 2000, que as coisas mudaram radicalmente para mim. Já andava há alguns meses a queixar-me de dores de ouvidos e a minha mãe já me levara ao hospital diversas vezes. Amoleceram-me a cera, limparam-me os ouvidos (a dor foi horrível), deram-me antibióticos, anti-inflamatórios, blá blá blá. Mas na noite de 24 para 25 de Junho não consegui dormir nada com tantas dores que tinha. Na manhã seguinte, não consegui aguentar mais e pedi aos meus avós para irmos embora. Estávamos a acampar e eles, à pressa, desmontaram tudo e levaram-me para casa. Quando cheguei ao hospital, fizeram-me tudo e mais alguma coisa. Não me recordo de tudo porque as minhas dores faziam com que eu desmaiasse e acabasse por dormir o dia todo. Mas lembro-me de um exame em específico que mudou o resto da minha vida. Os médicos pensaram que eu tinha meningite e decidiram fazer-me uma punção lombar. Infelizmente, decidiram que uma estagiária iria tratar do assunto, tornando-me num objecto de estudo. Ela tentou o procedimento duas vezes seguidas. Uma agulha grossa e enorme a ser espetada nas minhas costas, uma dor excruciante que me fazia saltar com espasmos e gritar; os médicos a segurarem-me e a pedirem-me para ficar quieta e eu a sentir que ia morrer naquela maca. "Ela está seca." dizia a estagiária enquanto me voltava a espetar a agulha. Depois disso foi necessário a minha mãe entrar na sala à força e perguntar o que raio estavam a fazer à sua filha para eles finalmente afastarem a estagiária e chamarem uma médica a sério. Essa médica fez-me o exame à primeira. Depois disso, voltei a adormecer e a cair na escuridão.
Depois deste episódio infeliz fiquei com medo de agulhas, de exames, de médicos, de hospitais... Portanto, estava fora de questão tornar-me uma cardiologista. Além disso, as médias no secundário e nas faculdades eram demasiado altas e eu não queria passar a minha adolescência de nariz enfiado nos livros. Foi então que descobri a dança. Comecei com umas brincadeiras na escola primária, para depois ir para um Ballet infantil, seguido de Dança do Ventre. Quando finalmente me apercebi que a dança era muito mais importante para mim do que eu imaginava, já eu contava com 13 anos e já tinha o corpo diferente do que aquele que devia ter para me tornar numa bailarina profissional. Mas eu não desisti. Fui à mesma para o Ballet "a sério", fiz todos os exames através da Royal Academy of Dance, distingui-me no meio de bailarinas que já lá estavam desde os 3 anos de idade, e no entanto... Todas as audições a que fui, todas as lutas que lutei, nunca foram suficientes. Acabei sempre por ficar a ver navios. E finalmente meti na cabeça que a dança só poderia ser apenas um hobbie e não uma carreira, para minha infelicidade.
Mas eu tinha um plano B. Desde pequenina que adoro ler e escrever. Por isso, porquê não me tornar uma escritora? Entretanto apercebi-me que também gostava de traduzir e editar textos. Era tudo tão simples, a resposta estava mesmo ali à minha frente! Quando chegou a hora de fazer alguma coisa, dei um passo em falso. Não sei se foi o curso que era o errado, se era a faculdade, se era simplesmente o timing... Mas tudo correu mal. As aulas eram todas aborrecidas, os professores preferiam falar da sua vida do que dar aulas universitárias, as praxes foram uma desilusão gigante, amigos contava-os em apenas uma mão, a solidão e a desmotivação mordiam-me e aproximavam-se a pouco e pouco. E a minha mãe não me deixou mudar de curso quando eu lhe pedi a primeira vez. Para além disso, este não era um curso universitário igual aos outros. Eu não podia simplesmente faltar às aulas e ir aos exames - se pudesse, tinha-o feito talvez em apenas três anos e agora já estava despachada. Não! As aulas eram obrigatórias, apresentações orais, dois testes por semestre, ensino secundário all over again... Mas ao menos no secundário os professores estavam preocupados em ensinar-nos alguma coisa. E ali... Ali estavam simplesmente a gozar com a nossa cara enquanto pagávamos propinas de 1000 e tal euros por ano já para não falar em passes e alimentação. Sentia-me num beco sem saída. E não queria desiludir ninguém. Tanta força fiz para continuar que um dia simplesmente não aguentei mais e sofri um esgotamento nervoso que me levou a desistir de tudo. Cancelei a minha matrícula, cancelei a minha vida inteira. E simplesmente fiquei alguns meses enfiada debaixo dos cobertores, a olhar para o tecto, para o ecrã do computador, a ouvir a vida a passar por mim...
E acho que vou ter de parar por aqui. Amanhã continuo. É melhor.
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