terça-feira, 22 de setembro de 2015

I'm going through changes... - II

De carro completamente cheio e uma sensação estranha no peito e no estômago, saí de casa com o João. A meio da viagem apercebi-me que o pai dele só estaria em casa depois de jantar e que ainda teríamos que fazer tempo até podermos ir para lá. Estávamos ainda no fim da tarde, ainda não tínhamos jantado e eu sentia que tinha a minha vida toda empacotada dentro daquele Fiat de 1997. Foi então que tive o meu primeiro ataque de pânico. Eu bem sabia o tempo que demorara a arrumar as coisas todas dentro daquelas malas por isso só conseguia imaginar o tempo que iria demorar a arrumar o meu novo quarto. Para além disso, eu não queria deixar o carro sozinho. Sentia que, se alguma coisa acontecesse, iria perder todos os meus bens materiais. E a melhor parte é que eu nem sequer sou muito materialista em comparação a amigas minhas que iam às compras todas as semanas. Mas naquela tarde quase que pareci uma princesa ofendida por não estar dentro do meu castelo.

O João aturou-me durante quatro horas naquela ansiedade. Para além de ouvir as minhas queixas, ainda me deu a mão e conduziu em silêncio, dando-me o espaço que eu precisava para pensar. Quando chegámos à nossa nova cidade, foi imediatamente a casa da avó buscar mantas e com elas tapou todo e qualquer conteúdo que podia estar à mostra no carro. Na altura só pensava o quão nas vistas aquilo dava - era óbvio que estávamos a esconder alguma coisa ali. Depois disso, com apenas 40€ na conta, levou-me a jantar a um restaurante italiano. Na altura não fazia a mínima ideia do quão curta estava a nossa vida em termos monetários e também não consegui dizer que não a uma boa lasanha. "Eu sei que quando estás a ter um dia mau gostas de comer um bom jantar." disse-me ele, enquanto sorria do outro lado da mesa. Foi só aí que comecei finalmente a acalmar. A verdade é que o meu maior tesouro não era aquele que estava dentro do carro, mas sim aquele homem que me estendia a mão por cima da mesa e olhava para dentro da minha alma.

Quando, depois de várias horas, chegámos a casa do pai dele, tive que ser eu mesma a acalmar a minha ansiedade. Homem solteiro de 50 e tal anos, uma gata e uma casa completamente suja e cheia de tralha. Decidi que não me iria descalçar. Pensar em pisar aquele chão causava-me náuseas. No entanto, para quê queixar-me? Estava ali o exemplo perfeito de tudo o que a minha mãe receava que eu me tornasse. Eu sabia que nunca iria ser assim só de olhar para aquele cenário. Por momentos quis ir buscá-la a casa só para ela me ver a varrer o chão, a esfregá-lo, a arrumar a roupa nos armários, a arrumar as mariquices todas no seu sítio certo, a fazer a cama, a limpar o frigorífico, a ir às compras, a lavar a loiça... Foi assim que se passou o meu fim-de-semana. E em dois dias, a casa parecia outra. A gatinha já se roçava nas minhas pernas enquanto eu caminhava descalça e um pequeno sorriso aparecia nos meus lábios.

Um problema estava resolvido. Outro chegou quando, ao irmos às compras, me apercebi que a nossa conta já ia em 100 e tal euros negativos. Ainda faltava dez dias para o fim do mês e ali estávamos nós: eu desempregada, com uma licenciatura por terminar, à procura de algo que me faça minimamente feliz; e o João a trabalhar numa empresa onde o trabalho físico não pára, as horas extra estão sempre a contar e apenas o ordenado mínimo a cair no final do mês. Foi nessa altura que perguntei a mim mesma "O que construí eu até agora?" Uns quantos livros, uns quantos contos, uns quantos projectos... Algumas capacidades nesta e naquela área. E no entanto continuo a tremer perante a hipótese de voltar à Faculdade de Letras para terminar o meu curso. Tremo, ainda mais, por ter de arranjar um emprego que provavelmente eu nem sequer vou gostar. Tremo, no meu íntimo, tornar-me a minha mãe. Não que ela não seja uma mulher forte e capaz. Mas temo anular a minha vida inteira por causa de alguém, esquecendo-me de mim mesma. Mas ao mesmo tempo vejo o João a esforçar-se todos os dias e penso "És tão egoísta... Faz alguma coisa!" E aqui ando, a tentar compreender e a tentar descobrir o que é que a minha vida vai ser daqui para a frente.

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