segunda-feira, 21 de setembro de 2015

I'm going through changes... - I

"João, segunda-feira estás disponível para me fazer um favor?" perguntou a minha mãe.
"Segunda-feira já cá não estamos, vamos amanhã mudar-nos para casa do meu pai." respondeu o meu namorado. O silêncio invadiu o quarto de paredes cor-de-rosa. "Mas posso ajudar à mesma, é só dizer o que precisa."

A minha mãe costumava perguntar-me porque é que ele tinha que ir dormir lá a casa e porque é que tínhamos que passar tantas horas juntos. Eu dava-lhe a resposta mais sincera de todas e ela mesmo assim não ficava satisfeita. "Porque gostas dele?" repetia ela a seguir, como se não fosse o suficiente. Acredito que cada um tenha uma maneira de amar diferente. Há pessoas mais desapegadas que outras, que preferem ter o seu próprio espaço e a sua independência sem serem incomodadas por segundos ou terceiros. Eu, pelo contrário, gosto de partilhar cada momento da minha vida com a pessoa que amo. Por vezes nem sequer precisamos de estar a conversar ou a olhar um para o outro; basta-me a sua companhia, a sua energia a tocar a minha muito suavemente. Mas explicar isto à minha mãe é praticamente impossível.

O que também é praticamente impossível de explicar é que o ambiente lá em casa não é nada saudável. Casados há mais de trinta anos, eu sempre achei que os meus pais eram considerados os Resistentes enquanto via os pais dos meus amigos a divorciarem-se ou a separarem-se. Sempre me orgulhei da relação que eles tinham e sabia o quão sortuda era por tê-los a ambos na mesma casa. Mas depois cresci e comecei a tomar mais atenção. As pequenas coisas eram as que faziam a maior diferença. Primeiro vi a minha mãe a não comprar uma peça de roupa nova durante anos e anos seguidos, dizendo sempre que ia precisar daquele dinheiro para alguma coisa; passados alguns dias, o meu pai comprava uma aparelhagem ou umas colunas novas. E ela continuava com a mesma roupa velha de sempre. Depois decidiram comprar uma casa no Alentejo. Sei que a minha mãe o acompanhou para todo o lado enquanto andavam a ver casas mas também sei que foi ele que insistiu que precisavam de uma casa de férias. Agora vão lá um fim-de-semana por mês para limpar a casa, gastar dinheiro com ela - porque é uma casa muito antiga e está constantemente a precisar de obras - ou para, uma em vinte vezes, realmente irem passar férias. Férias essas que eles passam mais tempo enfiados em casa a discutir do que realmente a usufruir do tempo livre que têm, passeando por aqui e por ali e experimentando a gastronomia local. Habituados a gerir o pouco dinheiro que tinham quando eram novos e ambos estavam desempregados, tornaram-se num casal perito em poupanças. Almoçar fora? Nem pensar! Ir a Sintra dar uma voltinha? O gasóleo e as portagens estão demasiado caros! Ir ao cinema? Para quê? Vamos esperar que o filme saia na TVI e depois passamos a tarde em casa a vê-lo. Tens frio no Inverno? Paciência, não queremos gastar muito dinheiro em luz portanto não tenhas o aquecedor sempre ligado. Precisas de uns ténis novos? Estás louca? Pára de gastar o meu dinheiro à toa que eu quero ir comprar uns vinis novos e preciso dele.

E depois chegavam os dias melancólicos... Os dias que o meu pai devia passar com a minha mãe, levá-la a passear ou simplesmente valorizar a sua companhia e se ia embora para sair com os amigos, com quem já passava a semana toda. E eu, sozinha em casa com a minha mãe, assistia à sua solidão. Quando me dava a conhecer, gritava comigo por eu não levá-la a lado nenhum. Por algumas vezes disponibilizei-me a ir passear com ela para que isso não acontecesse mas, mais uma vez, cresci. Comecei a construir a minha vida, o meu espaço, o meu círculo de amigos, os meus interesses... E às vezes até tentava incluir a minha mãe nisso tudo mas era impossível. Idades diferentes, gostos diferentes... E depois começaram os choros. Tardes inteiras em que ela gritava e chorava enquanto corria pela casa à procura de algo... Algo que nunca encontrou. Quando o meu pai chegava a casa, completamente à parte de tudo o que se passara durante o dia devido à sua indiferença, as discussões começavam outra vez. Gritos, acusações, tempestades... Energia quebrada e suja a encher-me o corpo de dores excruciantes. Só queria sair dali. Fugir e nunca mais voltar. Não seria tão mais fácil se simplesmente cada um seguisse o seu caminho e parassem de se magoar um ao outro? A primeira vez que o sugeri, a minha mãe ficou tão chocada comigo que só não me pôs de castigo porque sabia que eu já não era nenhuma criança pequenina. E eles lá continuam... Uma roda que gira sempre na mesma direcção, passando sempre pelas mesmas situações, pelos mesmos problemas e sem nunca chegar a uma conclusão, a um fim. Ou a um recomeço. Por isso, desde os meus 17 anos que um dos meus maiores objectivos era sair de casa. Não se trata de não os amar. Não se trata de não os querer perto de mim. Trata-se de manter a minha sanidade mental intacta e o meu foco em assuntos mais importantes e relevantes para a minha felicidade. Confesso que parte da minha felicidade passaria também pela felicidade dos meus pais mas já não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Está tudo nas mãos deles e nenhum deles quer mexer-se e desequilibrar tudo o que já construíram juntos - o que eu compreendo perfeitamente, daí ter arranjado outra maneira de me manter a mim feliz.

Eles nunca acreditavam em mim quando eu dizia que ia sair de casa brevemente. No entanto, no sábado arrumei a minha roupa toda de Verão/Outono em duas malas grandes de viagem, arrumei a minha maquilhagem, alguns livros, o meu computador, a minha máquina fotográfica e segui viagem para casa do pai do João. Nessa noite, a minha mãe não conseguiu dormir. Antes de me ir embora, o meu pai abraçou-me como já não fazia há alguns anos. A minha mãe hesitou ao sair de casa para ir aos anos da filha de uma amiga dela, sabendo que quando voltasse eu já não estaria lá. E em três dias, já me ligou nove vezes, fazendo-me perguntas e pedindo-me indicações para certos assuntos, como se precisasse de mim para seguir a sua vida em frente. E eu? Eu escreverei mais tarde o que se passou comigo.

1 comentário:

  1. I want to read the next part, i know i live with u all this moments, but read them, make me see some things differently

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