quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Já não consigo distinguir o que é real e o que não é. Sei as memórias que desenterrei da minha alma. Sei que outrora fui alguém que se sentava numa mesa redonda na companhia da sua família. Que, juntos, praticávamos magia negra e branca; que, juntos, mudámos o mundo. Que nos queriam queimar vivos e nós simplesmente nos ríamos enquanto bebíamos o absinto e fumávamos o ópio. Tínhamos os deuses do nosso lado. Nem sempre eram aqueles que a sociedade - tanto agora como antigamente - considerava aceitáveis, mas tínhamos. As nossas vidas eram curtas. No entanto, nesse piscar de olhos aprendíamos tudo o que conseguíamos, mostrávamos o quão poderosos éramos, ajudávamos quem tínhamos que ajudar, encontrávamo-nos uns aos outros. Amámo-nos mutuamente. Magoámo-nos mutuamente. Matámo-nos mutuamente. Rasgámos pele, músculo e órgãos. Triturámos ossos só com as mãos. Lutámos no meio da sujidade a que hoje em dia se chama humanidade. Caímos do Céu, levantámo-nos no Inferno. Governámos o Purgatório e cometemos erros uns atrás dos outros. Ajudámos almas penadas a fazerem a sua passagem. Fomos comidos por dentro pelas suas histórias e pela maneira como nos tocavam. Atirámo-nos de penhascos. Morremos de peste. Enforcámo-nos. Lutámos com e contra Dragões. Lutámos contra a nossa própria família.

Será esta a nossa luta, desta vez? Nesta vida, no meio de toda a tecnologia e evolução, estaremos nós condenados a simplesmente vermo-nos uns aos outros pelas costas e fingir que só existimos quando precisamos? Interesseiros. Falsos. Onde está aquele sentimento que me deram? Porque é que me ofereceram algo para agora o retirar com tanta crueldade? Porque é que fingiram que a família valia tudo quando os vossos egos são tão mais importantes?

Já não consigo distinguir o que é real e o que não é. Eu sinto-a dentro de mim, tal como sinto todos os outros. Sei que estou bloqueada de diversas maneiras e que o desbloqueio depende somente de mim. No entanto, sinto-me sozinha. Abandonada pela minha própria alcateia. Terei sido eu considerada a mais fraca, a enferma, aquela que tem de ser deixada para trás por não ter o mesmo ritmo que os outros? Porque é que algo me diz que isto já aconteceu outras vezes? Porque é que me sinto tão enganada? Porque é que naquela noite sonhei que um dragão me despedaçava e se ria de mim? Porque é que quando abri os olhos senti que a minha família me iria despedaçar?

Já o está a fazer. Não sei com quem posso contar. Com o quê. Nem sei se os deuses continuam do meu lado como antigamente. Se calhar só se riem de mim. Riem-se e regojizam-se com o meu sofrimento. Com os objectivos que eu nunca vou conseguir cumprir. Com a minha eterna sentença no meio de humanos cada vez mais estúpidos e robotizados. Riem-se com os contractos que eu sou obrigada a assinar antes de voltar a renascer, antes de voltar a ocupar um corpo feito de carne e osso. "Lá vai ela outra vez... Lá vai ela sofrer outra vez... Ser deixada de parte."

Porque é que esta vida, que se está a tornar tão longa em comparação às outras, se observa tão pequena? Tão curta em conhecimentos. Em práticas. Em acções. Nem uma chama do fogo consigo mover. A única coisa que me mantém presa a este mundo é todos aqueles rostos e corpos desfigurados que me visitavam. As suas mãos a agarrarem-me, a pedirem-me ajuda. "Onde estamos?" Inconscientes da sua morte. Ou então demasiado conscientes e prontos a me torturarem até ao ponto de eu não conseguir dormir. A cama a tremer. O meu corpo gelado. O meu pai fechado na cozinha e os seus gritos de desespero. E eu sem conseguir falar, andar... ou até respirar. Inútil. Talvez será isso que eu vou ser a minha vida toda. Uma inútil que já nem a sua Arte sabe praticar. Wiccan. Bruxa. Que tal simplesmente uma inútil que nem sequer se sabe proteger a si e aos seus? Que é deixada para trás pela sua própria espécie?

Despejada. Mas tão cheia de raiva e angústia. Vazia. Mas tão inchada pelo seu orgulho ferido. Porquê. Já não sei o que faz sentido. Apenas a escuridão e os seus braços me mantêm acordada e atenta ao que me rodeia. Quero-me afogar nos braços da minha amiga de longa data. Quero que ela me leve para um sítio onde eles me aceitem de volta. Mas depois lembro-me: lá fora eles continuam a ser os mesmos. Continuam a odiar-me. Já não consigo entender. Já não sei se quero viver ou morrer. Sempre abandonada. O Dragão consome-me por dentro. Cada vez sinto que é cada vez mais fácil deixar pedaços de mim por aqui e por ali. Já não sei quem sou. Inteira. Em partes. Não sei.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Diogo,

antes de ti a minha vida era relativamente fácil. Tinha tido os meus desamores e amores, a minha dose de lágrimas e corações partidos. Tinha também um sorriso simples e fácil de alcançar. Tudo tinha um sabor diferente. Olhando para trás, era realmente tudo muito fácil.
Depois de ti, começaram a chegar todos os demónios ao mesmo tempo.
Tenho passado muito tempo a tentar compreender em que fase da minha vida é que eu tropecei no buraco em que me encontro de momento. Pensei que talvez tivesse sido quando entrei na faculdade e me vi subitamente tão sozinha. Pensei que foi durante aquele ano em que eu procurei sofregamente por alguém que me completasse como nunca me sentira completa. Pensei que tinha sido tudo minha culpa.
E hoje, não sei porquê, lembrei-me de ti e de tudo o que me fizeste. As coisas boas e as más.

Lembro-me de teres passado o sétimo e o oitavo ano a gozar comigo constantemente. Eu nunca consegui entender se querias ser meu amigo ou se me odiavas. Tanto me falavas mal como depois me beijavas no jogo de Verdade ou Consequência e não parecias enojado. Quando anunciaste que te ias embora, não sei porque fiquei tão sentida. Não me eras nada para além de um puto armado em sabichão que gostava de criticar tudo e todos - especialmente a mim. Depois de te teres ido embora para o Norte é que eu finalmente percebi que era necessário distanciarmo-nos para a nossa amizade desabrochar. Tu eras demasiado imaturo e eu tinha mais com que me preocupar. Aturar-te todos os dias não fazia parte da minha agenda e estava tudo bem assim. E devia ter continuado assim. Infelizmente, tu conseguiste fazer comigo aquilo que sempre fizeste com toda a gente: sugaste-me para dentro dessa tua bolha de ilusões tão bem construída.
Chamei-te de melhor amigo. Ansiei pelas tuas visitas. Quando vieste, beijaste-me e fizeste-me jurar que não contávamos nada aos nossos namorados. Pobre Rúben que naquela altura era simplesmente uma criança e teve que passar por todo o mal que eu lhe fiz. Quanto à tua Bábá, não faço a mínima ideia de como ela ficou nem nunca me importei. Mas importei-me bastante com o facto de, mais uma vez, me teres manipulado. Pediste que ficássemos amantes em segredo. Enquanto magoávamos terceiros quando nos encontrávamos, fingíamos que estava tudo bem quando estávamos separados.
Um dia foi demasiado difícil para mim continuar a fingir. Contei tudo ao Rúben e odiei-me por o ter magoado de maneira tão fria e indelicada. Decidi que queria ficar contigo e ponto final. E fiquei. Durante pouco tempo, mas fiquei. Esse pouco tempo foi literalmente a primeira vez que eu me senti feliz com alguém. Andava nas nuvens, nada nem ninguém me preocupava. Somente tu, que estavas longe e eu queria estar contigo. Quando me vinhas visitar, parecia Natal outra vez. Aquele Natal em que ainda somos crianças e sabemos que ao acordar vamos ter imensos presentes embrulhados à nossa espera para os abrirmos e espalhar tudo pelo chão. Agora, olhando para trás, vejo como realmente esses tempos foram para ti: uma colheita de miúdas novas e inexperientes para tu tomares conta e magoares. Apresentei-te às minhas amigas. Exibi-te a toda a gente, orgulhosa do rapaz que tinha ao meu lado. E tu, mesmo à minha frente, colheste-as todas. O número desta, a atenção da outra. O e-mail da seguinte. E quando não estavas comigo, falavas com todas. Manipulavas a mente de todas. Todas elas se sentiam especiais para ti. Promessas e promessas atrás uma das outras mesmo à minha frente, mesmo quando eu finalmente te confrontei e te disse "Mostra-me essas mensagens!" E a maneira como tu me deste a volta para depois simplesmente fingires que ainda me amavas e me tocares como nunca ninguém me tocara.
E depois a notícia. Nunca cheguei a perceber quais as tuas intenções. Até hoje. Estavas a estudar o mercado, penso eu. À procura daquela que te daria mais facilmente aquilo que querias. Pensaste que essa pessoa seria eu. Fizemos coisas que eu nunca tinha sequer pensado em fazer com ninguém portanto estiveste bastante lá perto, não foi? Mas eu não chegava. Ou não era demasiado bonita, ou demasiado interessante, ou demasiado sei-lá-o-que-estavas-à-espera-de-mim. E ainda bem que não era. Depois de passares uma semana inteira comigo, a fazer juras de amor que quase podiam fazer parte de um filme do Nicholas Spark - e olha que eu não acho os livros dele nada de especial, são sempre iguais - voltaste para o Norte e simplesmente acabaste comigo por mensagem. Para quê? Para no dia seguinte estares a namorar com a minha melhor amiga.
Nessa altura pensei que estava o mais infeliz que alguma vez pudesse estar. As duas pessoas em quem eu mais confiava tinham-me traído. Mas o pior veio a seguir: o ano inteiro em que tu me ameaçaste e corroeste a alma. Um ano inteiro em que viraste toda a gente contra mim, em que me ligaste a insultar-me noites seguidas, em que fizeste pessoas mandarem-me e-mails a insultarem. Feia. Puta. Desinteressante. Horrível. Caixa de óculos. Puta. Puta. Puta. Depois de ouvir os mesmos insultos durante tanto tempo e ditos por tanta gente, eu comecei a acreditar neles. Foi aí que tu me destruíste. Gostava de dizer que fui forte o suficiente mas não fui. Tu realmente conseguiste fazer o que querias: destruir-me.
Foi aí que eu caí no buraco. Encontro-me rodeada pelos demónios. Às vezes eles nem sequer se dão ao trabalho de me chatear. Mas quando as coisas estão sérias... Quando as coisas estão sérias, eles nem sequer me deixam dormir. Sussurram-me ao ouvido coisas. Agarram-me os cabelos e fazem-me ver traições onde elas nem sequer existem. E eu vou cavando, cavando, cavando... Puta, feia, horrível, desinteressante. Porque é que alguém haveria de te amar a ti? Porque é que alguém te iria querer para sempre na sua vida? Claro que vai haver sempre melhor. Claro que vais acabar sempre por ser abandonada. Claro que aquelas raparigas com quem o João fala vão ser as suas futuras amantes.

Diogo, antes de ti eu era inocente. Depois de ti, foi-se tudo com o caralho. E, afinal, a culpada sou eu. Por ter deixado alguém me quebrar da maneira que tu quebraste. Por te odiar ao ponto de querer que sofras o triplo do que me fizeste sofrer. Por esperar que todas aquelas que corrompeste um dia te vejam pelo verdadeiro escorpião que és.

Era assim que tinha de ser. Era assim que tinha de acontecer. Só espero um dia conseguir ignorar os demónios e simplesmente ser feliz e aproveitar aquilo que tenho sem estar constantemente com medo que tudo se desvaneça por entre os meus dedos, como já tantas vezes aconteceu. Nessas vezes, eu penso sempre: o Diogo tinha razão.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Eu sei que existem certos alicerces que nunca estão completamente seguros. Quando aceitei, mesmo que em silêncio, ser colaboradora de alguém sem ter contracto sabia que mais tarde ou mais cedo essa decisão viria bater-me à porta com um machado na mão. Não sabia qual seria a ameaça mas pensei "Eu preciso do dinheiro e de momento mais ninguém me quer." Acabei por fazer aquilo que todos os outros Portugueses fazem: conformam-se com o que têm. Mas a esperança, naquela altura, já estava mesmo a começar a desaparecer. Até cheguei a pensar que fosse um presente dos deuses - se calhar continua a ser, mas temporário. Se nem o Continente, o ALDI ou o McDonalds me querem a trabalhar com eles, ou eu tenho um CV horrível, ou sou muito má com entrevistas; ou então estou destinada a outras coisas maiores. Foi assim que pensei quando me surgiu esta oportunidade, daí tê-la agarrado com unhas e dentes. Mas entretanto alguém me bateu à porta com o machado na mão. Tuberculose. Sim, essa doença ainda existe nos tempos de hoje e é a segunda doença mais comum em Portugal. E o pai do João apanhou-a, pela segunda vez. Não posso deixar de referir que me sinto zangada com ele, mais do que o normal. Para além de todas as tarefas que ele não faz no dia-a-dia, decidiu também não mexer o rabo quando os sintomas começaram a aparecer. Deixou-se ficar por meses a tossir repetidamente, continuou a fumar que nem uma chaminé, emagreceu de uma forma rápida e chocante. Mas não, ir ao hospital estava fora de questão. Teve de ser o João a praticamente obrigá-lo, levando-o no carro até Setúbal e deixando-o lá sozinho durante uma tarde inteira sem muito sítio para ir senão as Urgências. Entretanto já os bacilos tiveram mais que tempo para se infiltrar no meu sistema e no do seu filho, contaminando-nos.
Quando a notícia chegou, confesso que nem pensei naquilo que ele teria de passar a partir dali. Mas sim no que eu teria de passar. Eu tinha sido exposta à doença e tinha que ir fazer exames. Disseram-me que, felizmente, não teria que fazer nada de especial, nada que envolvesse agulhas. Quando cheguei ao Centro, desmentiram tal informação. Aí aconteceu o primeiro ataque de pânico. Recusei-me a fazê-lo, mesmo ciente do quão importante era. Afinal, o raio-x aos pulmões poderia dizer-me o resultado exactamente da mesma maneira e isso já não iria mexer com os meus nervos. Assim o fiz. Não deixei que usassem agulhas em mim mas fui fazer o raio-x, já com o corpo a tremer, o coração a bater com demasiada força, a minha mente perturbada a criar diversos cenários. E depois veio a pancada do machado. O meu patrão não me quer na sua loja enquanto eu não souber se estou infectada ou não. Já para não falar que o negócio anda fraco, segundo as suas palavras. O que é certo é que ele continua a viver num apartamento de luxo e tem tudo o que é bom, enquanto que eu estou prestes a mudar-me para uma casa com mais de cem anos por não ter possibilidades para mais - amo a casa, mesmo centenária, amo-a do fundo do meu coração. Mas estamos a remodelá-la há quatro meses e nunca mais vejo a hora de me mudar para lá. Enfim, quatro dias em casa, quatro dias sem receber. Vou saber o resultado dos exames hoje e também o resultado da minha vida como empregada ou desempregada. Não sei se vou estar doente. Não sei se vou estar saudável. Não sei se vou continuar a ser precisa lá. Não sei se vou ficar em casa. O que é certo é que ninguém me quer, novamente. Ninguém me estende a mão com uma boa oportunidade. E a vida vai-me dando marretadas. A última seria, sem dúvida, ir parar a um quarto de isolamento durante meses, doente e sem ninguém, longe de tudo aquilo que amo e acompanhada das vozes na minha cabeça. Tenho medo. Tenho tanto medo.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Esta sou eu. A rapariga que durante vinte e dois anos se fechou no seu quarto, entre quatro paredes a tentar perceber quem era e para onde devia ir. A rapariga que se apercebeu que o seu caminho devia ser feito na Tua companhia. A rapariga que não pensou duas vezes em abraçar as mudanças de duzentos e quarenta graus na sua vida para poder estar contigo a toda a hora. Não me conheces assim há tanto tempo, portanto não conheces a Sara-antes-do-João. As coisas eram feitas à minha maneira e ponto final. As únicas excepções foram os anos que eu fiquei na faculdade contra a minha vontade e todas as situações que nasceram a partir daí. De resto, ou me acompanhavam ou ficavam para trás. Cansada de ser deixada em segundo, terceiro e quarto plano, parei de me preocupar com os outros primeiro. Se ninguém me colocava no topo da pirâmide, eu mesma teria que o fazer. Quando isso começou a acontecer chamaram-me de fria, egoísta, egocêntrica, mimada. Mas a verdade é que as coisas eram finalmente feitas à minha maneira. Se eu queria assim e não existiam razões para não ser assim, então era bom que o fosse e rápido. Tornei-me impaciente. Cansada de esperar pelos outros e de simplesmente ser abandonada, decidi que seria eu a primeira a abandonar a partir de certa altura. E foi isso que aconteceu. Quando não me conseguiam acompanhar na minha caminhada, levavam alguns avisos. Se depois dos diversos avisos continuavam a afundar-se e a querer levar-me atrás, eu simplesmente saía do buraco sozinha. Comecei a encarar essa minha maneira de ser como a lei do mais forte. Ou tinhas pedalada para a vida e fazias o melhor que conseguias dela ou simplesmente ficavas para trás e eu continuava a correr. Sempre com as minhas dúvidas, sempre sem saber para onde caminhava; mas ao menos não ficava parada no tempo.
Depois de ti, a Sara mudou. Ela já não se fechava no quarto; ela preferia enfiar-se no carro contigo e simplesmente viajar sem rumo pela cidade que vos acolhia. Ela já não fazia tudo à sua maneira. Consciente do quanto feliz te queria fazer, deixou maus hábitos para trás. Por vezes não queria sair de casa e simplesmente ficar na cama, mas tu pedias-lhe para ela ir contigo. E ela ia. E não te tratava mal por causa disso. Simplesmente ia e aceitava a tua companhia, que era a única coisa boa que advinha daquela viagem que ela não queria fazer. De repente, as responsabilidades chegaram. Para quem não fazia nada, uma onda de tarefas chegou e quase que a afundou. Mas ela lá limpava o chão, estendia a roupa, passava a ferro, cozinhava de vez em quando... Preferia estar na cama ou no computador, a ver um filme e a preguiçar contigo, mas ela sabia o que tinha de fazer e fazia-lo. A Sara estava habituada a estar em casa mas começou a seguir-te para todo o lado. Estava também habituada a que tu lhe desses a tua total atenção, mas começou a partilhar-te com outras pessoas. Ela só precisava de ti. E queria que tu só precisasses dela. Mas as coisas não são assim. A Sara morre de medo que tu te vás embora. Que um dia acordes, olhes para ao lado e percebas que estás a desperdiçar a tua vida com ela. Que encontres alguém mais interessante, alguém que se ria de todas as tuas piadas e que te limpe a casa, que cozinhe frequentemente e que não esteja constantemente a pedir-te sexo. Alguém que não seja eu. A Sara. E ver-te infeliz com a Sara que eu sou é a pior coisa que me está a acontecer. Ver que aquilo que eu sou não te satisfaz, não te completa, não te chega... Quantas mais Saras precisarás tu? Se calhar não precisas de nenhuma. Se calhar eu fazia-te um favor se me fosse simplesmente embora. Mas deixar-te é o mesmo que morrer.

O dia em que eu te deixar vai ser o dia em que eu aceitei o meu destino. E nunca mais me verás. Nunca mais cheirarás a minha pele ou nunca mais tocarás no meu cabelo. No dia em que eu te deixar, o meu coração vai deixar de bater. Mas ao menos tu vais ser feliz pois esta Sara nunca será o suficiente para ti.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A chuva está a cair lá fora. Consigo ouvir as gotas a baterem no telhado e no chão da varanda. O som acalma-me mas não o suficiente. Nos dias que correm é praticamente impossível relaxar. Estou em constante guerra comigo mesma. Antigamente não era necessário batalhar. Antigamente, mesmo odiando certas partes de mim, era fácil ser quem sou e os meus problemas eram sempre exteriores à minha essência. Agora tudo se revolta dentro de mim. Vejo-o a dormir ao meu lado tão tranquilamente que só me apetece chorar. Como consegue ele amar uma criatura como eu? Quando me sinto à deriva, não consigo olhá-lo nos olhos. Quando me estou prestes a perder, não consigo manter-me nos seus braços. Irrito-me com pequenas coisas, sinto ciúmes de tudo e de todos, afasto-me de todos os que me querem bem. Só não me afasto dele porque ele não me deixa. Mas o que fazer quando sentimos que não servimos para nada? Que toda a gente estaria melhor sem a minha presença? Que ele estaria mais feliz se amasse outra mulher que não eu? Uma mulher que não arranjasse qualquer pretexto para discutir, que não levantasse a voz quando as coisas não são feitas à sua maneira, que não estivesse constantemente a pensar no seu passado e no seu futuro. Depressiva e ansiosa. Nunca em paz consigo mesma. Nunca tranquila. Sempre sedenta da sua atenção. Do seu toque. Do seu olhar. Do seu beijo. E consciente de que se continuar nesta batalha há-de chegar o dia em que ele não vai ter mais forças para aguentar todas as frentes sozinho.
E a pior parte é que quero mudar e não consigo. Luto contra as minhas próprias birras e tento fazer o que qualquer mulher decente faria. Tento passar a ferro no meu intervalo de almoço e fazer o jantar para ele poder dormir mais algumas horas. Tento fazer-lhe certas vontades que não estavam nos meus planos e acabo mesmo por cancelar tudo o que queria fazer para apenas vê-lo descansado e agradado com o longo dia que vai ter na cama, na minha companhia. Queres ver um filme? Vamos ver um filme. Queres deitar-te no meu colo? Deita-te no meu colo, eu faço-te festinhas no cabelo. Queres ignorar todas as tarefas que temos cá em casa por fazer? Ignora-as que eu entro na preguiça contigo. Mas eu sinto que isto não chega. Onde está aquela Sara que estava lá para apoiar o homem que ama em qualquer situação? Que se preocupava mais com o seu bem-estar do que com o meu? Aquela Sara que em vez de se sentar em frente ao computador aborrecida, se deitaria ao lado dele à espera que ele se sentisse melhor. Que o abraçaria nos momentos mais difíceis. Na verdade, que abraçaria qualquer amigo nos momentos mais difíceis. Agora já nem sequer quero abraçar ninguém. Quero toda a gente longe de mim. Longe do que é meu. Pois eu estou consciente da merda que sou e da facilidade com pode desaparecer a única preciosidade que ainda tenho: Ele. E no entanto continuo a pedir-lhe para fazer o jantar de vez em quando, para limpar a casa quando tiver tempo, para jogar o jogo que eu quero. Para me fazer as vontades. Para me foder quando eu quero. Eu, eu, eu... E mesmo assim nunca me sinto eu mesma. Não sei o que fazer. Desaparecer é provavelmente a opção mais correcta. Mas assim a outra Sara vencia. Mas talvez todos ficassem mais felizes. Portanto, tentar vencer ou simplesmente desistir?

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Memórias I

Cheirava a humidade e se o silêncio absoluto existisse entre aquele grupo de pessoas, conseguia ouvir-se gotas a caírem no chão de pedra fria. A luz do sol não penetrava aquela adega subterrânea portanto diversas velas brancas e negras estavam espalhadas pela divisão, criando por baixo de si bases de cera derretida que outrora pingara e sujara as superfícies de madeira. A mulher loira e de olhos azuis estava parada em frente a um armário cheio de garrafas de diferentes formas, cores e feitios. Este tinha buracos em forma de losangos onde as bebidas esperavam os tão aguardados lábios envenenados daquelas putas caras. A mulher de cabelo branco e longo esperava ao lado da loira, observando com os seus olhos minuciosos qual seria a garrafa que ela iria escolher. Miriam estendeu a mão para uma garrafa triangular e com um líquido negro e brilhante. Não tinha qualquer tipo de rótulo e mal a estendeu para as mãos da mulher idosa, esta abriu-a e um fumo branco saiu cá para fora.
- Muito bem, boa escolha! - exclamou a mulher idosa com um sorriso malicioso.
De garrafa na mão, caminhou até ao seu lado esquerdo e abriu uma porta. A divisão continha uma mesa redonda onde mais pessoas estavam sentadas. Pousou a garrafa em cima da mesa e o fumo que saía desta misturou-se com o fumo que saía da boca daqueles familiares. Miriam sentou-se no seu lugar habitual e serviu-se. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

No dia 25 de Junho de 2014 fui a uma bruxa fazer o meu mapa astral para o meu ano, que acabaria a 25 de Junho de 2015. Entretanto já passaram cinco meses desde que o meu ano astral mapeado chegou ao fim mas hoje apetece-me fazer uma análise àquilo que me foi dito e àquilo que realmente aconteceu.

"Este ano será decisivo para a tua auto-estima e para o reconhecimento de ti mesma." disse-me ela. Na altura não percebi muito bem e lembro-me de ter ficado preocupada com o facto de talvez não chegar a reconhecer-me e de ficar presa em alguma espécie de limbo na minha consciência. Ela não chegou a acalmar esse meu receio que me causou comichão durante alguns dias. Depois fui-me esquecendo lentamente daquela minha ânsia em reconhecer quem realmente era e do quanto a minha auto-estima precisava de ajuda.

Sempre tive uma vida preenchida de momentos. Aventuras, relações amorosas, amizades terminadas, objectivos escolares cumpridos, exames de ballet ultrapassados... Mas nunca tive um ano tão caótico como esse ano astral que passou. 

Tudo começou em Julho. Ciente de que a minha criatividade andava há algum tempo meio estagnada, não esperava sonhar com um dos meus maiores projectos de sempre numa simples noite de Verão. No entanto, foi isso que aconteceu. O Roleplay of Legends surgiu no dia a seguir depois de muitas horas de trabalho e alinhamento de arestas. Nem eu sabia as proporções que tal projecto teria na minha vida e na vida de outras quantas pessoas.

Depois chegou Outubro. Lembro-me de me ir deitar e de o meu peito me ter começado a doer. Sabia que no dia a seguir tinha de ir para a faculdade e só esse pensamento fazia com que o meu corpo se contorcesse de dores. Chorei a noite inteira sem saber o que se passava comigo. Só então me apercebi que estava a ter um esgotamento nervoso depois de três anos e meio a aguentar fazer algo que me deixava miserável. Decidi então dizer aos meus pais que ia desistir do curso. Chorei, lutei e tive que repetir as mesmas palavras vezes sem conta. Discuti e senti toda a infelicidade a entrar pela janela da de uma só vez. No entanto, o peso que carregava sobre mim durante aquele tempo todo simplesmente desapareceu de um momento para o outro. E de repente comecei a conseguir respirar outra vez. Pensar outra vez. Planear e projectar outra vez. Levou tempo mas lá fui conseguindo e alcançando.

Entretanto chegou Janeiro. Visto que exactamente no dia dos meus anos conhecera o Spawn Point Gaming Lounge e o Jorge, não esperava que fosse assim tão literal a importância que todos esses acontecimentos fossem ter na minha vida. Arranjei então o meu primeiro emprego numa loja de informática através do Jorge, arranjando logo de seguida um segundo emprego numa loja um pouco estranha de artigos em segunda mão. Nesse mês trabalhei as minhas primeiras horas, tomei as minhas primeiras decisões conscientes e senti os primeiros espinhos do mundo dos adultos. Em Fevereiro decidi finalmente ficar apenas com um dos empregos e dediquei-me ao que fazia de corpo e alma. Infelizmente, a pessoa que trabalhava comigo tinha planos diferentes para mim. Consciente das minhas capacidades, tentou levar-me para uma escola mística que acabou por criar muitas perguntas e poucas respostas na minha cabeça. Em Janeiro conheci também o João.

Felizmente, essas perguntas foram mais tarde respondidas em Março quando conheci o Drakke. Finalmente consciente de que aquele futuro que alguém tentara desenhar para mim não encaixava naquilo que eu queria e precisava, abri uma porta nova que jamais julgara abrir. De repente, todo o Universo estava na palma da minha mão e tudo aquilo que eu julgara verdade era apenas a ponta de um iceberg gigante. O meu mundo deu uma volta de trezentos e sessenta graus. Comecei a ver tudo de maneira diferente. A sentir também... A minha relação com o Botas deu os seus primeiros passos para o abismo, consequentemente.

Em Abril lutei contra parte dos meus demónios. Consciente de que estava a libertar algo que amava bastante, acabei por decidir que me amava mais a mim mesma. Despedi-me e nunca baixei a cabeça enquanto me insultavam e apontavam dedos, culpando-me de erros que eles mesmos haviam cometido. Enchi-me de força e coragem e não explodi, não procurei vingança nem me enchi de arrependimentos. Sem olhar para trás, deixei-os num rasto de esquecimento e insignificância que eles mesmos passaram a odiar.

E depois chegou Maio. Embrulhada num mundo novo a que ainda não me habituara por completo, obriguei-me a mim mesma a tomar decisões tão difíceis que eu cheguei a achar que não conseguiria aguentar o peso e o vazio que deixariam para trás. Mais uma vez armei-me de força e coragem e fui sempre em frente. Sem pisar ninguém e tentando fazer os menores estragos possíveis, agarrei a minha felicidade com as duas mãos e terminei tudo com o Botas, começando uma nova relação com o João.

E depois chegou 25 de Junho de 2015, a data em que festejei o meu primeiro mês com o meu amor e a data em que dei por mim sentada num café rodeada de poucas pessoas - mas boas - a cantarem-me os parabéns à meia-noite. Já não estava sentada em frente a um computador ou deitada na minha cama à espera do reconhecimento de pessoas que nunca mais olhariam para mim. Agora era tudo real. E um novo ano astral começou. E entretanto já vivi tanto... E sei que o meu auto-reconhecimento foi necessário para todo este crescimento repentino em mim mesma. Na parte da auto-estima... continuo a lutar todos os dias; há aqueles em que venço e aqueles em que perco, sendo estes últimos os mais comuns.