terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Memórias I

Cheirava a humidade e se o silêncio absoluto existisse entre aquele grupo de pessoas, conseguia ouvir-se gotas a caírem no chão de pedra fria. A luz do sol não penetrava aquela adega subterrânea portanto diversas velas brancas e negras estavam espalhadas pela divisão, criando por baixo de si bases de cera derretida que outrora pingara e sujara as superfícies de madeira. A mulher loira e de olhos azuis estava parada em frente a um armário cheio de garrafas de diferentes formas, cores e feitios. Este tinha buracos em forma de losangos onde as bebidas esperavam os tão aguardados lábios envenenados daquelas putas caras. A mulher de cabelo branco e longo esperava ao lado da loira, observando com os seus olhos minuciosos qual seria a garrafa que ela iria escolher. Miriam estendeu a mão para uma garrafa triangular e com um líquido negro e brilhante. Não tinha qualquer tipo de rótulo e mal a estendeu para as mãos da mulher idosa, esta abriu-a e um fumo branco saiu cá para fora.
- Muito bem, boa escolha! - exclamou a mulher idosa com um sorriso malicioso.
De garrafa na mão, caminhou até ao seu lado esquerdo e abriu uma porta. A divisão continha uma mesa redonda onde mais pessoas estavam sentadas. Pousou a garrafa em cima da mesa e o fumo que saía desta misturou-se com o fumo que saía da boca daqueles familiares. Miriam sentou-se no seu lugar habitual e serviu-se. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

No dia 25 de Junho de 2014 fui a uma bruxa fazer o meu mapa astral para o meu ano, que acabaria a 25 de Junho de 2015. Entretanto já passaram cinco meses desde que o meu ano astral mapeado chegou ao fim mas hoje apetece-me fazer uma análise àquilo que me foi dito e àquilo que realmente aconteceu.

"Este ano será decisivo para a tua auto-estima e para o reconhecimento de ti mesma." disse-me ela. Na altura não percebi muito bem e lembro-me de ter ficado preocupada com o facto de talvez não chegar a reconhecer-me e de ficar presa em alguma espécie de limbo na minha consciência. Ela não chegou a acalmar esse meu receio que me causou comichão durante alguns dias. Depois fui-me esquecendo lentamente daquela minha ânsia em reconhecer quem realmente era e do quanto a minha auto-estima precisava de ajuda.

Sempre tive uma vida preenchida de momentos. Aventuras, relações amorosas, amizades terminadas, objectivos escolares cumpridos, exames de ballet ultrapassados... Mas nunca tive um ano tão caótico como esse ano astral que passou. 

Tudo começou em Julho. Ciente de que a minha criatividade andava há algum tempo meio estagnada, não esperava sonhar com um dos meus maiores projectos de sempre numa simples noite de Verão. No entanto, foi isso que aconteceu. O Roleplay of Legends surgiu no dia a seguir depois de muitas horas de trabalho e alinhamento de arestas. Nem eu sabia as proporções que tal projecto teria na minha vida e na vida de outras quantas pessoas.

Depois chegou Outubro. Lembro-me de me ir deitar e de o meu peito me ter começado a doer. Sabia que no dia a seguir tinha de ir para a faculdade e só esse pensamento fazia com que o meu corpo se contorcesse de dores. Chorei a noite inteira sem saber o que se passava comigo. Só então me apercebi que estava a ter um esgotamento nervoso depois de três anos e meio a aguentar fazer algo que me deixava miserável. Decidi então dizer aos meus pais que ia desistir do curso. Chorei, lutei e tive que repetir as mesmas palavras vezes sem conta. Discuti e senti toda a infelicidade a entrar pela janela da de uma só vez. No entanto, o peso que carregava sobre mim durante aquele tempo todo simplesmente desapareceu de um momento para o outro. E de repente comecei a conseguir respirar outra vez. Pensar outra vez. Planear e projectar outra vez. Levou tempo mas lá fui conseguindo e alcançando.

Entretanto chegou Janeiro. Visto que exactamente no dia dos meus anos conhecera o Spawn Point Gaming Lounge e o Jorge, não esperava que fosse assim tão literal a importância que todos esses acontecimentos fossem ter na minha vida. Arranjei então o meu primeiro emprego numa loja de informática através do Jorge, arranjando logo de seguida um segundo emprego numa loja um pouco estranha de artigos em segunda mão. Nesse mês trabalhei as minhas primeiras horas, tomei as minhas primeiras decisões conscientes e senti os primeiros espinhos do mundo dos adultos. Em Fevereiro decidi finalmente ficar apenas com um dos empregos e dediquei-me ao que fazia de corpo e alma. Infelizmente, a pessoa que trabalhava comigo tinha planos diferentes para mim. Consciente das minhas capacidades, tentou levar-me para uma escola mística que acabou por criar muitas perguntas e poucas respostas na minha cabeça. Em Janeiro conheci também o João.

Felizmente, essas perguntas foram mais tarde respondidas em Março quando conheci o Drakke. Finalmente consciente de que aquele futuro que alguém tentara desenhar para mim não encaixava naquilo que eu queria e precisava, abri uma porta nova que jamais julgara abrir. De repente, todo o Universo estava na palma da minha mão e tudo aquilo que eu julgara verdade era apenas a ponta de um iceberg gigante. O meu mundo deu uma volta de trezentos e sessenta graus. Comecei a ver tudo de maneira diferente. A sentir também... A minha relação com o Botas deu os seus primeiros passos para o abismo, consequentemente.

Em Abril lutei contra parte dos meus demónios. Consciente de que estava a libertar algo que amava bastante, acabei por decidir que me amava mais a mim mesma. Despedi-me e nunca baixei a cabeça enquanto me insultavam e apontavam dedos, culpando-me de erros que eles mesmos haviam cometido. Enchi-me de força e coragem e não explodi, não procurei vingança nem me enchi de arrependimentos. Sem olhar para trás, deixei-os num rasto de esquecimento e insignificância que eles mesmos passaram a odiar.

E depois chegou Maio. Embrulhada num mundo novo a que ainda não me habituara por completo, obriguei-me a mim mesma a tomar decisões tão difíceis que eu cheguei a achar que não conseguiria aguentar o peso e o vazio que deixariam para trás. Mais uma vez armei-me de força e coragem e fui sempre em frente. Sem pisar ninguém e tentando fazer os menores estragos possíveis, agarrei a minha felicidade com as duas mãos e terminei tudo com o Botas, começando uma nova relação com o João.

E depois chegou 25 de Junho de 2015, a data em que festejei o meu primeiro mês com o meu amor e a data em que dei por mim sentada num café rodeada de poucas pessoas - mas boas - a cantarem-me os parabéns à meia-noite. Já não estava sentada em frente a um computador ou deitada na minha cama à espera do reconhecimento de pessoas que nunca mais olhariam para mim. Agora era tudo real. E um novo ano astral começou. E entretanto já vivi tanto... E sei que o meu auto-reconhecimento foi necessário para todo este crescimento repentino em mim mesma. Na parte da auto-estima... continuo a lutar todos os dias; há aqueles em que venço e aqueles em que perco, sendo estes últimos os mais comuns.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

«Dançarino, cozinheiro, cabeleireiro... sim senhor, João!» exclamou uma das minhas melhores amigas, a Catarina, ao analisar a trança que ele fizera no meu cabelo em apenas alguns segundos.

Depois deste seu pequeno comentário, tenho dado por mim a pensar em todas as coisas que o João é bom. Em todas as coisas que ele sabe fazer - e bem. Em todas as coisas boas que ele representa. Em tudo aquilo que ele é. O seu ser. A sua alma. E foi então que me apercebi que estava na altura de escrever acerca dele.

Antes de começar a escrever, fiz-lhe uma festinha na cara. Consegui sentir parte dos pêlos da sua barba a roçarem a ponta dos meus dedos ao mesmo tempo que sentia a suavidade da sua pele por baixo da minha mão. Consigo ouvir a sua respiração pesada enquanto dorme ao meu lado e a maneira como se mexe depois de perceber que o silêncio foi interrompido pelos meus dedos furiosos a bater no teclado. Ele é o homem mais bonito do mundo. Quando o conheci, em Janeiro de 2015, ele era meramente uma ilusão na minha vida real. Ele morava na Holanda com a sua (ex)namorada, com quem estava há cinco anos, e eu estava em Portugal com o meu (ex)namorado com quem estava há dois anos. Conhecemo-nos através desta fabulosa engenhoca chamada computador/portátil, na Internet. O meu projecto, Roleplay of Legends, foi a razão de tudo isto. Não o conhecendo de lado nenhum, ele tornou-se um dos meus membros mais fiéis e críticos do fórum. Apercebi-me disso pelas simples conversas que ele tinha no chat. Percebi que a minha paixão não era só partilhada pela Sanguinia, pela Necis, pela Cris e pelo Nuno... Ganhara mais um apaixonado e o seu nickname era Mystifier Druid. Um dia, assombrada pelos meus problemas com o Botas, fui trabalhar com o coração muito pesado e pensamentos perturbantes. Engraçado que, no meio de tanta gente com quem poderia falar, foi ele quem eu escolhi, sem nunca antes ter trocado uma palavra decente com ele. Algo me atraiu até si e a partir daí conversar com ele tornou-se num prazer do meu dia-a-dia. Eu falava-lhe acerca da minha relação que estava prestes a terminar e ele falava-me acerca do amor da sua vida (na altura), dando-me a entender que era ela a mulher com quem ele queria passar o resto dos seus dias.

Uma noite, ele simplesmente não apareceu online e isso deixou-me preocupada. Esperei por ele algumas horas, ocupando-me com jogos e com outras coisas que ainda conseguia fazer com o Botas, mas sem nunca o retirar da minha mente. Só no dia seguir é que ele apareceu e eu apercebi-me que algo estava mal. A habitual alegria que ele tinha dentro de si estava ausente e hoje não haveria conversas acerca do amor da sua vida. Ele tinha descoberto conversas dela com outros homens que lhe partiram o coração. Foi a partir daí que ele começou a rebobinar, a pouco e pouco, mês a mês, todos os males que ela já alguma vez lhe tinha feito. Os seus próprios amigos fugiam de ter que falar ou jogar com ela. Os rumores eram muitos. Fui-me apercebendo com o tempo do quão destruído ele estava simplesmente por causa de uma miúda estúpida que não soube valorizar o que tinha em mãos. Mas é melhor não entrar em pormenores senão este texto pode durar a noite inteira e eu também preciso de dormir.

A partir daí, os meses foram passando. Eu ia arranjando cada vez mais desculpas para continuar com o Botas enquanto o meu coração me apontava noutras direcções; e o João ia fingindo que a tinha perdoado depois de muitas lágrimas derramadas e promessas quebradas, passando os dias inteiros em frente ao computador a falar comigo o máximo tempo que podia. Tornou-se óbvio aquilo que eu sentia por ele. Mas admiti-lo era admitir também que a minha relação com o Botas tinha chegado ao fim. Por isso, guardei tudo para mim durante mais algum tempo enquanto ele fingia que ficar a noite inteira acordado a falar comigo era algo normal, ignorando a mulher que tinha em casa quando esta chegava do trabalho. Ao menos ele ainda lhe preparava a mala de manhã, antes dela sair, e lhe dava um beijo de bom dia. Mas depois corria até à sua cadeira e ligava a sua webcam comigo, sorrindo durante horas a fio. Foi preciso coragem para admitir, mas acabei por fazê-lo. Segundo ele, o João já estava interessado em mim há muito tempo mas não queria estragar a minha relação com o Botas. Essa, no final, acabou por se romper à mesma por escolha minha. Depois de muitas horas de conversas, lágrimas, alguns beijos e muitos abraços, dei a minha relação, no qual tinha investido tanto de mim mesma, por acabada e liguei-lhe. Queria ouvir a voz dele a dizer-me que tudo ia ficar bem. Infelizmente, ela estava lá ao lado e ele não pôde falar comigo durante muito tempo. O meu coração, completamente amachucado, ansiava pelas suas palavras que nesse dia nunca chegaram.

É aqui que começa a minha lista de coisas boas que o João é. O João sempre me soube surpreender. E depois de eu terminar a minha relação com o Botas, ele rapidamente terminou a sua união de facto de cinco anos, dizendo-me que estaria em Portugal em Agosto (estávamos em Maio nessa altura), para mais tarde me dizer que afinal partiria dois dias depois. Eu, que já me preparara para esperar aquele tempo todo, fiquei de boca aberta a olhar para a mensagem que ele me deixara. Contra todas as hipóteses e todas as circunstâncias (pois ele não tinha dinheiro para viajar assim tão cedo), ele vinha para Portugal brevemente apenas para estar comigo.

Lembro-me de ter contado as horas. De mal ter conseguido dormir naqueles dias e de estar num estado de ansiedade (da boa, atenção) constante. Quando finalmente chegou o dia, o meu estômago e os meus intestinos insistiam em incomodar-me e a viagem de comboio e de metro pareceram durar horas. O meu olhar perdia-se na paisagem lá de fora e a minha mente vagueava em como seria o nosso primeiro encontro. Ia buscá-lo ao aeroporto sem ninguém saber. Disse aos meus pais que ia a casa da Catarina e lá fui eu. Simplesmente queria estar nos seus braços o mais depressa possível. Quando cheguei ao aeroporto, ele ainda não tinha chegado. Fiquei, o que me pareceu ser uma eternidade, parada em frente à saída, procurando-o com o olhar. As minhas mãos não conseguiam estar quietas, o meu coração queria sair-me pela boca fora. Quando finalmente o vi...

Quando finalmente o vi apercebi-me que era ele o amor da minha vida. A sua forma de caminhar, a sua forma de olhar para mim e sorrir, o seu olhar... Ele disse-me que receava que eu não quisesse ficar com ele pois estava com uma cara demasiado séria quando ele chegou. No entanto, eu estava simplesmente a explodir por dentro e a tentar não apanhar todas aquelas pessoas estranhas pelo caminho. Por isso, caminhei até ele e abracei-o com toda a força que tinha. Os seus braços envolveram o meu corpo e eu soube que ele era o meu encaixe perfeito. Quando finalmente me afastei, não consegui esperar mais. Os meus lábios encontraram rapidamente os dele sem qualquer tipo de medos ou constrangimentos. Esqueci-me por completo do medo que tenho de beijar mal ou mesmo todas as pessoas que estavam à nossa volta. O João dá os melhores beijos que eu já experimentei na minha vida. O João tem o olhar mais doce à face da Terra. O João tem as mãos mais fortes e firmes que eu já senti a agarrem o meu corpo. O João tem um cheiro natural fantástico. O João é perfeito para mim. E tem os lábios mais carnudos e mais saborosos que... é melhor beijá-lo já pois estou a perder-me em sensações que me provocam arrepios e borboletas no estômago. Adorava poder descrever tudo o que um beijo dele me faz sentir mas é impossível.

No nosso primeiro dia conheci um João completamente diferente daquele a que estava habituada a ver na webcam. Ele era real. Já não era apenas uma ilusão. E a maneira como eu o desejava era - e é - o sentimento mais real que eu já senti até hoje. Nessa noite tive-o de diversas maneiras e ele teve-me a mim. Tive medo de lhe mostrar o meu corpo mas ele rapidamente me retirou a timidez toda e fez-me sentir a mulher mais poderosa do mundo. O João é o melhor amante que conheci até hoje. O melhor dominador. O melhor fodilhão. O melhor cabrão. O João faz-me pingar de desejo por ele. Por tê-lo dentro de mim. O João faz-me querer fundir o meu corpo no seu. O João desperta todos os meus sentidos de uma maneira sobrenatural. O João é bom. O João tem um corpo fantástico. O João tem uma cara lindíssima. O João é o homem mais atraente e sensual que conheci até hoje.

Na manhã seguinte, quando tive de o deixar, a minha vida parecia ter perdido todo e qualquer sentido. Passara meses a falar com ele por computador. Agora chegava a casa e ele não estava lá pois ainda tinha que arrumar tudo o que trouxera da Holanda e dormir algumas horas - visto que não tínhamos dormido quase nada. Dei por mim parada no meio do meu quarto sem saber o que fazer. Não queria jogar, não queria ler, não queria ouvir música, não queria ver séries, não queria ver filmes, não queria dormir... Só queria estar com ele, nada mais. E todas as horas que esperei para estar com ele eram pura tortura. O meu corpo ardia por ele. O meu coração nada mais fazia do que amá-lo tão intensamente que eu perdia a noção do tempo e do espaço à minha volta. De repente, tudo me fazia lembrar o seu cheiro, o seu toque, a sua voz... E passadas umas horas, lá estava em lá em baixo dentro do carro à minha espera. Eu vestia a minha melhor roupa, colocava um pouco de lápis preto nos olhos, dava um jeito ao cabelo e olhava-me ao espelho. Era aquela a mulher que o João amava. E eu orgulhava-me por ser essa mulher - ainda me orgulho, passado quase meio ano. E quando entrava dentro do carro, a sua mão deslizava imediatamente para a minha perna descoberta pelo vestido e a sua boca começava imediatamente a explorar a minha. Estivemos neste turbilhão de emoções durante alguns meses. Sabia que namorávamos há pouco tempo mas todas as horas que passava sem ele eram horas perdidas, vazias. Quando ele me convidou para viver consigo, nem sequer pensei duas vezes. E entretanto fui descobrindo mais coisas em que o João é bom.

O João é bom dançarino. Ele foi o único homem a dançar comigo, em vinte e dois anos, à frente de toda a gente. Ele foi o único homem a agarrar-me e a exibir-me no meio da pista de dança, excitando-me ao ponto de querer ir para casa ou para um sítio mais privado para o ter mais uma vez dentro de mim. O João é um bom cozinheiro. Todos os dias ele cozinha-me o jantar e raramente se queixa de eu não cozinhar o jantar para ele. Quando nos sentamos à mesa, espera pacientemente pela minha aprovação e depois fica alguns minutos a observar-me a comer, dizendo de seguida «Dá-me tanto prazer ver-te a comer.» ao que eu responderei «Dá-me tanto prazer que me comas.» Ele ri-se a seguir e depois do jantar comemo-nos várias vezes se for preciso. O João está sempre a mexer-me no cabelo. Ou para penteá-lo, ou para fazer-lhe festinhas, ou para fazer penteados... Às vezes mexe-lhe e nem sequer se dá conta, enquanto conversa com alguém. O João é o melhor namorado - ou marido - do Universo. O João é o melhor amor que senti e vivi até hoje. O mais saudável e o mais forte. O mais intenso. O mais ciumento também. Quando conheço outras mulheres na vida dele, fico imediatamente alerta. Perdê-lo é dos meus maiores medos. Não iria aguentar perder o homem mais perfeito para mim que conheci até hoje. O João é compreensivo. Ele não se chateia comigo nos meus ataques de ciúmes e até gosta deles, dizendo-me de seguida que sou a única mulher para si, beijando-me de maneira a que eu não possa dizer mais nada. O João é engraçado. Está constantemente a fazer piadas parvas que me fazem rir à gargalhada. Às vezes até faz algumas não tão giras que me fazem torcer o nariz, apenas para ver alguns ciúmes a virem ao de cima. O João é fofinho. De vez em quando adopta por completo a criança que está dentro de si e faz birrinhas e vozes engraçadas, já para não falar nos beicinhos e nos pedidos que me faz. Suga-me então os mamilos fingindo que é uma criança esfomeada para a seguir mudar por completo o seu humor e simplesmente agarrar-me o cabelo enquanto me fode por trás. O João é um humano estupendo mas também um bruxo espectacular. Bruxo, mago, visionário... Um deles. Mas sempre espectacular. E ele é o único que até hoje aceitou a minha faceta mais negra e escondida. É o único que, para além de a aceitar, tentou compreendê-la, o que entretanto nos levou à conclusão que ele é como eu. O João tem capacidades fantásticas. Ele consegue meditar em apenas alguns segundos e ter visões enquanto outros bruxos lhe passam energias. Também consegue perceber rapidamente quando é que algo me está a incomodar e coloca as minhas necessidades sempre em primeiro lugar. O João é trabalhador. Nunca se queixa que tem trabalho a mais e faz sempre tudo a tempo e horas. É um óptimo profissional e encontra sempre motivação, mesmo que seja nas coisas mais pequenas e insignificantes. O João está sempre a mimar-me. Quase todos os meses compra-me algo, nem que seja um ramo de rosas. Ou uma caixa de chocolates. Ou umas calças novas. Ou uns sapatos. E depois elogia-me sem parar. Eu até posso estar gorda, com a depilação por fazer, cheia de borbulhas e muito mal-humorada; mas ele elogia-me sempre. E consegue sempre encontrar algo de bom em mim para me apontar. E quando discutimos, o João é sempre o primeiro a perdoar-me e a pedir por perdão apenas para não me magoar e para evitarmos debates desnecessários. 

O João é perfeito. E tenho a certeza que me faltam escrever muitas coisas acerca dele. No entanto, neste momento prefiro guardá-las para mim e rejubilar por poder amar o João e por o João amar-me de volta. Amar o João é a segunda melhor coisa do mundo. A primeira é ser amada por ele.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Não desapareci. A vontade de escrever é muita e os pensamentos continuam a fluir a mil à hora como sempre. Era tão fantástico se de vez em quando eu conseguisse pausá-los e fazer um aprofundamento dos mesmos de maneira a colocar tudo em ordem dentro da minha cabeça. Infelizmente isso (ainda) não é possível. Gostava de conseguir sentar-me de olhos fechados, de desligar todos os meus sentidos e de ouvir-me a mim mesma sem usar a boca ou os ouvidos. Gostava de conseguir relaxar e pensar mais positivamente, de me considerar especial e importante para mim mesma, de me amar... No entanto, ainda não consegui encontrar nenhuma das fórmulas milagrosas para todos os meus desejos. Muita gente me diria: luta por eles, simplesmente. Mas eu já nem sei sequer o que é lutar. Sei que tento todos os dias, mesmo quando a minha alma enegrece e me pede para descer até ao buraco que cresceu na minha existência. No entanto, todas as tentativas saem furadas ou completamente ao lado. E ainda só tenho vinte e dois anos disto. Como será o resto da minha vida? Sei que ela me vai foder à grande mas às vezes gostava que essa foda não fosse tão difícil de ultrapassar como tem sido nos últimos anos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Depois de mais de um mês desempregada, um antigo colega meu ligou-me a dizer que estava a trabalhar no call center da PT a vender serviços da MEO. Perguntou-me também se eu queria que ele entregasse o meu currículo lá pois queria ajudar-me. Obviamente que eu disse que sim. Cada vez chego mais à conclusão que, sem cunhas ou empurrões, não chego a lado nenhum. Não tenho um diploma, não tenho nada que inspire confiança às pessoas de que realmente sou capaz - apesar de o ser. E assim continuo. Sem nada meu, nada conquistado pelas minhas próprias mãos, sangue ou suor.
No mesmo dia em que ele entregou o meu currículo, ligaram-me imediatamente a marcar uma entrevista. Depois da entrevista, comecei uma formação com a duração de um mês. Vou agora a meio da segunda semana, ainda meio confusa e a lutar interiormente. As minhas necessidades lutam contra as minhas paixões e o meu amor próprio. Quero acreditar que desta vez vou conseguir ultrapassar qualquer obstáculo e que vou agarrar-me ao objectivo de querer uma casa só minha e do João, de termos o nosso dinheiro e a nossa estabilidade financeira. Quero acreditar que desta vez não vou desistir por estar a odiar o que estou a fazer. Mas eu conheço-me tão bem... Sei que quando tropeço a primeira vez, começo a olhar para o caminho com outros olhos. E hoje foi o primeiro tropeção. Se calhar estava a caminhar demasiado depressa, se calhar as coisas estavam a correr demasiado bem para o meu lado e estava na altura de receber uma visita.
Não sei o que se passa comigo - ou então até sei mas não quero acreditar. Se as coisas acontecerem da forma que eu acho que vai acontecer, muita coisa vai mudar. A minha cabeça está neste momento a doer devido a todas as lágrimas reprimidas. Não quero pensar nos diversos caminhos que o meu futuro pode tomar a partir daqui pois sinto que vou sofrer por antecipação. Quero focar-me no presente e nos problemas que neste momento tenho em mãos: dores de barriga e de costas infernais, intestinos fracos, um teste adiado para amanhã que pode vir a decidir se fico empregada ou não, a matéria toda que perdi, os suores frios que me assaltaram durante a viagem de comboio, a vontade que tenho de adormecer e nunca mais acordar... Quero ultrapassá-los a todos, um de cada vez. Quero mostrar a mim própria que mesmo com este tropeção, as coisas vão correr bem. Quero ultrapassar o próximo também. E, no entanto, sinto-me tão frágil. Não sei em que momento irei desabar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Escrito a 29 de Julho de 2015

"            Nada acontece por acaso. Não sou fã de escrever clichés, mas a frase anterior tornou-se numa espécie de lema na minha vida. Nos últimos meses, tenho-a ouvido mais vezes do que alguma vez imaginei e isso fez-me pensar no seu significado. Ainda não sei meditar por isso ainda não consigo chegar ao cerne das questões nem tomar as decisões mais acertadas. Ainda sou demasiado mundana. Mas acho que não sei ser outra coisa. Apesar de existir um grupo de pessoas que me diz que sou diferente, eu sinto-me igual a toda a gente. Talvez não igual. Talvez inferior. Como se me faltasse sempre alguma coisa. Já perdi a conta às vezes em que me sentei num local público em silêncio enquanto observava as pessoas que estavam à minha volta. Não conheço os seus passados nem os seus presentes, mas gosto de imaginar como serão os seus pensamentos naquele preciso momento; quando passam por mim e os seus olhos se cruzam com os meus por um milésimo de segundo. Pergunto-me o que fará a minha mãe continuar a viver a vida que tem. Será por amor? Será que isso é o suficiente para viver uma vida longamente incompleta? Será que lhe chega acordar todos os dias, ir trabalhar o máximo que consegue, ser mal-tratada pelas pessoas que estão à sua volta e depois chegar a casa e não ter a atenção total dos dois seres que mais ama? Será que lhe chega a quantidade de vezes que a levei a comer fora ou a fazer compras comigo? Ou a quantidade de vezes em que realmente a abracei e expressei o meu amor por ela? Provavelmente não. Provavelmente ela deseja que eu o faça mais vezes, tal como deseja que eu a ajude sempre que me pede – o que nunca acontece. Como a minha mãe existem milhares de humanos. Mas eu, supostamente, não sou uma humana. Por isso, se calhar é normal achar que a vida que nos é impingida não é nada de jeito, nada satisfatória! Não sei precisar o ponto em que comecei a pensar assim. Mas nada acontece por acaso.
            Segundo a minha mãe, eu quando era pequenina via coisas e falava com elas. Não eram alucinações nem problemas mentais, era algo muito superior ao plano em que vivemos. Ela contou-me que um dia, era eu ainda uma bebé de poucos meses, ela tinha ido às compras e vinha carregada com os sacos, trazendo-me ao peito numa espécie de malinha. Não sei o nome daquilo nem me apetece ir procurar, portanto vai ficar malinha para bebés. Enquanto ela descia as escadas, de sacos na mão e Sara ao peito, tropeçou e começou a cair para a frente. Ela não teve tempo para reagir, como é óbvio. Se víssemos tal cena a acontecer num filme em câmara lenta, provavelmente gritávamos para o ecrã, enquanto comíamos pipocas:
- Mas que raio?? Larga os sacos e protege a bebé!
            Não foi isso que aconteceu, obviamente. Ela simplesmente caiu. O que ela me contou foi que a única coisa que lhe passou pela cabeça era que me ia esmagar com o peso do seu corpo e que não sabia como o impedir. Não foi preciso, no entanto. Antes de chegar ao chão, o seu corpo manteve-se a flutuar a alguns centímetros do mesmo e eu estava em segurança. Algo me manteve viva naquele dia. E desde aí que ela se convenceu que eu não era uma criança qualquer. Pelos vistos, sempre fui muito social na minha infância e extremamente educada. Fácil de lidar e fácil de amar. Estavam lá todos os ingredientes para eu crescer de maneira a tornar-me numa adulta com um futuro promissor e cheio de sucesso. E no entanto aqui estou eu, sentada numa cadeira em frente ao meu portátil à meia noite a escrever, desempregada e meio perdida. O meu namorado está a tentar adormecer – felizmente ele adormece ainda melhor com barulho portanto as teclas devem estar a ajudar – pois vai trabalhar às quatro da manhã. Está a trabalhar porque quer construir um futuro para nós. É esse o seu principal objectivo: sustentar-me. Ele não está habituado a não viver junto da pessoa que ama. E eu, apesar de nunca ter tido casa própria, também não quero estar longe dele. Ando há três meses à procura de emprego ou de algo que me tire de casa. Talvez aquele futuro promissor e todo aquele sucesso ainda estejam por chegar... E que seja ao lado dele, pois nada faz sentido sem o ter perto de mim.
            E entretanto perdi-me. Quando começo a pensar nele, os meus pensamentos voam para outros lados, outros mundos... Amá-lo dói tanto como me traz felicidade. E a pior parte é conseguir explicar-lhe que a dor que eu sinto não é provocada por ele mas sim por mim mesma. Como é que ele me consegue amar? Sinto que ele merece alguém tão melhor que eu, tão mais...qualificada na vida. Provavelmente devo estar a soar como alguém que se gosta de vitimizar. Afinal, a minha mãe está sempre a afirmar que eu gosto muito de me fazer de vítima. Mas a verdade é que eu nunca gostei de mim mesma. Quando me olho ao espelho, poucos são os dias em que eu realmente gosto daquilo que vejo. Antigamente, era apenas o meu aspecto físico que me incomodava. Actualmente, tenho vindo a questionar-me também acerca do meu interior. Quem sou eu? Pensava que ia conseguir responder a esta pergunta brevemente, mas algo me diz que ainda vou demorar algum tempo a chegar lá.
            Preciso de ler o que escrevi para me situar novamente. Preciso de cinco minutos.
            Voltei. E vou voltar à minha infância. Segundo os meus pais, sempre fui uma criança muito bondosa, carinhosa e fácil de lidar, tal como já tinha escrito. No entanto, tenho algumas memórias menos boas que ainda hoje não consigo compreender por completo. Como, por exemplo, porque é que me lembro de a minha mãe ter tido um ataque de raiva e ter descarregado em mim a certa altura. Lembro-me que estava na altura das limpezas de Primavera. Ela devia estar extremamente stressada e eu provavelmente só estava a empatá-la. Não me lembro se fui brincar ou não, mas já tentei arranjar diversas razões para ela ter feito o que fez. A que arranjei foi esta: ela estava a limpar o meu quarto, frustrada com a sua vida, e eu entrei lá dentro e simplesmente fui brincar, desarrumando as coisas que ela tinha arrumado e ocupando o espaço que ela precisava para se manter sã. A partir daí, é tudo lágrimas e ranho na minha memória. E dor. Lembro-me do meu pai ter pegado em mim ao colo e me ter levado no carro para longe dali. Lembro-me também de ele ter ido tratar de um assunto qualquer enquanto eu fiquei dentro do carro a olhar para a rua pelo vidro. Os meus pensamentos eram básicos: o que fiz eu de mal para a mãe me ter batido? Esse pensamento manteve-se na minha cabeça durante a minha vida toda. O que fiz eu de mal para os meus pais acharem que mereço ser castigada e assediada por eles durante a minha vida toda? Lembro-me de situações em que pedia algo à minha mãe e ela me dizia que não. E eu perguntava “Mas porquê?” e ela respondia “Porque não te posso dizer que sim a tudo.” Mas porque é que ela não o poderia fazer? Eu sempre tive boas notas, ia à escola e nunca faltava, tinha amigos, não fazia asneiras, mantinha-me longe dos problemas... Tudo o que me era pedido, eu fazia. No entanto, nem tudo o que eu pedia tinha uma resposta positiva. Quando comecei a deixar de fazer o que me era pedido, as coisas começaram a piorar. Agora sim, eles acham que têm razões para me destruir por completo. Porque, finalmente, eu deixei de fazer o que me era pedido. Não arrumo a casa, não passo a ferro, não levanto a mesa, não guardo a loiça na máquina, não acabei de tirar a carta de condução, não largo o computador, não deixo de estar com o meu namorado e não acabei a minha licenciatura. Dei-lhes tudo o que eles precisavam para o pesadelo em que eu vivia se tornar um inferno. Se bem que o inferno é bastante relativo. Já olhei directamente nos olhos do Diabo e não foi medo que senti – nem desconforto. Mas acho que fui clara o suficiente ao descrever o meu desconforto diário no meio do meu seio familiar. Há um ano atrás, o meu pai deu-me um excerto de porrada que me levou a estar fora de casa durante um mês inteiro. Eles tinham acabado de chegar do trabalho e eu tinha acabado de ir para o computador, pois tinha estado a terminar trabalhos durante o dia e achei que estava na altura de ter a minha pausa. A minha mãe chamou-me para fazer a cama e eu expliquei-lhe que teria de a fazer mais tarde pois estava no meio de um jogo que não podia abandonar. Segundos depois tinha o meu pai a gritar-me aos ouvidos, o que me fez levantar da minha cadeira e fazer uma lista das coisas que tinha feito durante o dia, para lhe mostrar que eu não era nenhuma inútil. Sim porque se há um adjectivo que os meus pais usam muito para me caracterizar, esse é inútil. Enquanto fazia a minha lista, o meu pai agarrou-me pelo pescoço e começou a apertá-lo. Empurrou-me para o sofá e começou a esmurrar-me, fazendo força com o seu corpo contra o meu. Senti o meu ar todo a desaparecer e o meu único reflexo foi dar-lhe pontapés, pois era a única parte do meu corpo que não estava presa. Quando a minha mãe chegou à sala, ele soltou-me. O que aconteceu a seguir desapareceu da minha memória mas muito provavelmente eu simplesmente corri para o meu quarto, tranquei-me lá dentro e liguei ao meu ex-namorado (naquela altura actual) para me ir buscar. Mas a pior parte nem sequer foi o excerto de porrada que levei. A pior parte foi a colite nervosa que desenvolvi ao longo desse mês e as coisas que vim a saber depois. Já sem dinheiro para ir para a faculdade e constantemente enervada, tive que ligar à minha mãe para discutir o meu futuro com ela. Esta recusou-se a dar-me dinheiro sem consultar o meu pai e ainda me disse que eu é que lhe batera. Não sei em que universo é que ela vive. Nem como raio é que ela pôde pensar numa coisa dessas. Mas foi isso que ela transmitiu ao resto da minha família e de repente eu passei a ficar conhecida como a filha que está sempre a desobedecer aos pais, que os maltrata e que não faz nada. “Não estive lá para ver, mas sei que erraste.” Palavras da minha tia. Ainda não percebi muito bem no que é que errei. Terá sido no alvo dos meus pontapés, para tentar afastá-lo de mim e para voltar a ganhar algum ar? A certa altura, senti que o meu próprio namorado duvidava das minhas palavras. “Eu não estive lá, mas se tu dizes que aconteceu é porque aconteceu.” Mas depois olhava para mim de uma maneira tão...banal. Como se tudo aquilo fosse natural. Ou talvez eu andasse a pedi-las. Ou se calhar estou a ser demasiado dura com ele. Ele sempre deu o seu melhor na nossa relação. Mas o seu melhor nunca foi o suficiente.
            E estou a chegar a um assunto demasiado sensível. Por isso talvez seja melhor voltar novamente para trás. Quando era pequena, lembro-me de estar deitada na cama do meu tio Carlos, em casa da minha avó Fernanda, de pernas para o ar. Quando ela entrou no quarto, vi o medo nos seus olhos. Esta pediu-me para me colocar direita e explicou-me que tinha sido assim que o meu avô Idálio morrera. As palavras que jorraram da minha boca, depois disso, eu senti que não eram minhas. Contei-lhe que costumava ver o avô, que ele me costumava visitar e falar comigo. Ela ficou muito emocionada e quase me santificou ali mesmo. E eu continuava a pensar para mim mesma “Porque é que lhe menti?” mas depois uma voz interior respondia “Não mentiste. Tu realmente via-lo. E falavas com ele. Há muito tempo atrás.” Mas eu não me lembrava de nada..."

domingo, 4 de outubro de 2015

Eles comem tudo...

Hoje queria falar de várias coisas. Mas não me parece que vá escrever acerca de todas até porque normalmente quando me embrenho num assunto demoro algum tempo a sair dele e a tirar as minhas próprias conclusões. Portanto, acho que vou começar por aquele que neste momento me está a fazer mais confusão.

As eleições legislativas deste ano.

Eu nunca fui uma pessoa que se interessasse por política. Tenho uns pais que não costumam falar muito no assunto, mesmo tomando atenção aos debates, às assembleias e às notícias que correm pelo país todos os dias. No entanto, nunca aconteceu entrarmos em discussões acesas acerca desse assunto e eu também nunca estive interessada em tal coisa. Quando fiz 18 anos foi-me dado um novo direito: votar. Na altura estudei as minhas hipóteses todas para tentar entender o que é que cada acção queria dizer para o futuro do país; os votos em branco, os votos nulos, a abstenção... Decidi que iria sempre votar, nem que fosse no mal menor. Entretanto comecei a pensar em votar em branco pois, supostamente, se uma certa percentagem da população o fizesse, os candidatos seriam substituídos. A abstenção, no entanto, nunca me passou pela cabeça. Sentia que, se o fizesse, estaria a dar o poder de escolha às outras pessoas e não a mim mesma. Hoje, apesar de ter ido votar e de não ter deixado a folha em branco, senti-o à mesma. Senti que o poder de escolha não foi meu e que aquela cruzinha não fez qualquer tipo de diferença. Nos últimos anos tem-se assistido a diversas situações alarmantes. Manifestações, greves, emigração, miséria... Desigualdade. Uns com tanto e outros com tão pouco. Acho que, no fundo, isso é o que me incomoda mais. Sei que também há países em situações muito mais graves e precárias que o nosso mas eu não posso encher a minha mente com esses pensamentos senão vai surgir um ainda mais grave: o que estou eu a fazer aqui?

E já me estou a perder, novamente. Onde estava eu? Ah, as eleições de ontem. Então não é que depois de tantas queixas, tantas manifestações, tantas greves, os portugueses voltaram a votar nos mesmos? Eu pergunto-me se os votos são forjados ou se somos realmente um povo muito masoquista.

O João absteve-se de votar. Tentei dar-lhe a entender que isso não era o mais correcto mas ele também me deu as suas razões. Disse-me que, se mais 50% da população se abstivesse, todo o sistema teria que ser reformulado. E, realmente, parece que é disso que estamos a precisar. No entanto, algo me diz que o sistema nunca iria admitir que precisa de uma reformulação e nunca iríamos atingir esses resultados. Portanto, o que resta? Outra revolução dos cravos? Desta vez com mais sangue derramado pelas ruas de Lisboa? Não entendo. Sei que a Humanidade é mesmo assim: condenada e repetir os mesmos erros uma e outra vez. Mas não esperava que em apenas 40 anos se cometessem os mesmos erros tantas vezes seguidas. Sinto-me preocupada. Não quero, mas sinto. Afinal, é neste país que vivo. É neste país que me vejo obrigada a concorrer a call centers - porque são os únicos sítios que chamam - onde se ganha misérias e tem que se aguentar a pressão até ao caralho mais velho. É neste país que me vejo obrigada a terminar um curso superior para conseguir uma carreira a sério visto que dão mais valor a um diploma do que a experiência e valor. É neste país que me vejo obrigada a desistir de uma carreira em qualquer área que eu goste porque ser bailarina, escritora, fotografa ou cantora não me vai pagar as contas. Mas nesta altura do campeonato também me pergunto: qual é o país que não tem os seus problemas? Se ele existir, por favor... Eu mudo-me já para lá! Abandono a minha família e os meus amigos para poder concretizar todos os meus sonhos e viver de maneira mais descansada - ou então não. Tantos condicionantes, tantas limitações... Um leque de escolhas à minha frente que, no fundo, é apenas uma ilusão. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ain't nobody loves me better than you...

"Acredita que não há um dia em que eu não agradeça aos deuses por te ter." disse eu, enquanto abraçava o João e lhe mexia no cabelo de forma carinhosa. Meio deitados na cama, ele tinha a sua cabeça encostada ao meu peito e mordia-me os mamilos para depois sorrir daquela sua maneira traquina.

Hoje é dia - ou noite - de escrever acerca de coisas que me fazem feliz. Hoje é dia de deixar o pessimismo um pouco de parte e sorrir perante todas as alegrias que tenho vivido ultimamente nos últimos quatro meses.
Depois daquele dia em que eu me deixei deprimir devido ao pouco dinheiro que eu e o João tínhamos, acordei na minha cama gigante com uma chamada dele. Ele tinha ido trabalhar de manhã cedo, como sempre, e não era natural ligar-me aquela hora. Um pouco atarantada, atendi o telemóvel e recebi uma das melhores notícias dos últimos tempos: ele fora aceite numa nova empresa onde ia ganhar mais e também trabalhar na sua área, deixando assim o trabalho de escravo que tinha de fazer todos os dias apenas para ganhar o salário mínimo. Nessa noite, infelizmente, não pudemos festejar pois a minha menstruação chegou e com ela chegaram também as dores infernais. Mas alguns dias depois ele informou-me que iria ter umas mini férias. Visto que a nova empresa o queria a trabalhar a partir de dia 1 de Outubro, ele iria estar Sábado, Domingo, Segunda, Terça e Quarta-Feira em casa comigo. "Para te dedicar algum tempo..." justificou-se ele. E assim o fez. No Sábado dormimos até tarde e aproveitámos a companhia um do outro, indo depois jantar a casa da mãe dele. No Domingo foi a vez de irmos almoçar a casa dos meus pais, onde passámos algumas horas também a ver um concerto dos Muse ao vivo no ecrã gigante da sala do meu pai. Depois disso, conversámos durante algumas horas como já não fazíamos há algum tempo. Ultimamente parecia que existia pouco tempo para conversar mas esse sentimento desvaneceu-se rapidamente. No meio de algumas ideias tempestuosas e alguns conflitos de opiniões, senti-me a renascer nos seus braços e nos seus beijos novamente. O resto da tarde foi passada na Feira Medieval da terrinha, onde comemos crepes com Nutella, comprei um finalmente um underbust - que me fica terrivelmente bem - e um choker lindíssimo que imediatamente me fez pensar no meu clã. Bebemos também uma sangria de mirtilos num copo de barro muito engraçado que fumegava por todos os lados, já para não falar nas bandas e todo aquele entretenimento que nos rodeava. Toda a energia que tinha perdido na última semana foi completamente reposta no Domingo, sem dúvida alguma. Senti-me em casa, senti-me segura.

Segunda, Terça e Quarta passaram num instante. Entre filmes, episódios de séries, arrumar a casa, passear, fazer compras, levar o carro ao mecânico... O tempo passou e eu nem dei por ele a passar por mim. Ontem, Quarta-Feira, ainda fomos ao centro comercial buscar as nossas alianças que estavam encomendadas há cerca de quinze dias. Quando ele colocou a minha no meu dedo, não pude deixar de sorrir e estremecer por dentro. "Agora és oficialmente minha." disse ele. Claro que não são precisas quaisquer tipo de alianças ou objectos para eu ser completa e totalmente dele. E ele sabe disso. Ao fim da tarde ainda acabámos por comprar alguns brinquedos para nos divertirmos na cama - ou noutro sítio qualquer - e agora encontro-me aqui, em frente ao ecrã do portátil, com as suas costas tatuadas viradas para mim e a sua respiração pesada como música de fundo. E dou por mim a pensar: posso estar desempregada, posso não ter conquistado tudo aquilo que queria até agora, posso focar-me em todas as coisas más que me acontecem... Mas uma coisa não me posso esquecer: nos próximos tempos irei sempre acordar e adormecer ao lado da pessoa que mais amo e isso ninguém me pode tirar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cut my life into pieces, this is my last resort...

"Achas que devo pedir à minha mãe uma mesada enquanto estiver desempregada?" perguntei eu.
"Se ela nunca te deu uma, porque é que haveria de dar uma agora que estás a viver fora da casa dela?" respondeu o João. "Eu prometo que tudo vai ficar bem. Deixa isso comigo."

O problema é esse, exactamente: deixar isso contigo.

Quando era pequenina queria ser cardiologista. Aliás, médica do coração. Sempre estive ciente de que o meu avô tem muitos problemas de coração e que já esteve às portas da morte várias vezes. Portanto, o meu sonho era curá-lo. Na minha cabeça, se eu me tornasse a sua médica do coração, ele nunca mais teria qualquer tipo de problemas. Entretanto fui-me apercebendo que as coisas não eram bem assim. Para além de o problema não ser a falta de competência dos médicos que foram tratando do meu avô ao longo dos anos - aliás, até foram óptimos porque depois de não sei quantos ataques cardíacos, enfartes e, mais recentemente, um cancro nos intestinos, ele continua vivo e forte - cheguei também à conclusão que ser médica não me estava destinado. Quando era pequenina gostava muito de ir a hospitais. Gostava do cheiro e sabia que, quando saísse de lá, me iria sentir melhor. Era uma solução fácil e simples. Foi no meu dia de anos, dia 25 de Junho de 2000, que as coisas mudaram radicalmente para mim. Já andava há alguns meses a queixar-me de dores de ouvidos e a minha mãe já me levara ao hospital diversas vezes. Amoleceram-me a cera, limparam-me os ouvidos (a dor foi horrível), deram-me antibióticos, anti-inflamatórios, blá blá blá. Mas na noite de 24 para 25 de Junho não consegui dormir nada com tantas dores que tinha. Na manhã seguinte, não consegui aguentar mais e pedi aos meus avós para irmos embora. Estávamos a acampar e eles, à pressa, desmontaram tudo e levaram-me para casa. Quando cheguei ao hospital, fizeram-me tudo e mais alguma coisa. Não me recordo de tudo porque as minhas dores faziam com que eu desmaiasse e acabasse por dormir o dia todo. Mas lembro-me de um exame em específico que mudou o resto da minha vida. Os médicos pensaram que eu tinha meningite e decidiram fazer-me uma punção lombar. Infelizmente, decidiram que uma estagiária iria tratar do assunto, tornando-me num objecto de estudo. Ela tentou o procedimento duas vezes seguidas. Uma agulha grossa e enorme a ser espetada nas minhas costas, uma dor excruciante que me fazia saltar com espasmos e gritar; os médicos a segurarem-me e a pedirem-me para ficar quieta e eu a sentir que ia morrer naquela maca. "Ela está seca." dizia a estagiária enquanto me voltava a espetar a agulha. Depois disso foi necessário a minha mãe entrar na sala à força e perguntar o que raio estavam a fazer à sua filha para eles finalmente afastarem a estagiária e chamarem uma médica a sério. Essa médica fez-me o exame à primeira. Depois disso, voltei a adormecer e a cair na escuridão.

Depois deste episódio infeliz fiquei com medo de agulhas, de exames, de médicos, de hospitais... Portanto, estava fora de questão tornar-me uma cardiologista. Além disso, as médias no secundário e nas faculdades eram demasiado altas e eu não queria passar a minha adolescência de nariz enfiado nos livros. Foi então que descobri a dança. Comecei com umas brincadeiras na escola primária, para depois ir para um Ballet infantil, seguido de Dança do Ventre. Quando finalmente me apercebi que a dança era muito mais importante para mim do que eu imaginava, já eu contava com 13 anos e já tinha o corpo diferente do que aquele que devia ter para me tornar numa bailarina profissional. Mas eu não desisti. Fui à mesma para o Ballet "a sério", fiz todos os exames através da Royal Academy of Dance, distingui-me no meio de bailarinas que já lá estavam desde os 3 anos de idade, e no entanto... Todas as audições a que fui, todas as lutas que lutei, nunca foram suficientes. Acabei sempre por ficar a ver navios. E finalmente meti na cabeça que a dança só poderia ser apenas um hobbie e não uma carreira, para minha infelicidade.

Mas eu tinha um plano B. Desde pequenina que adoro ler e escrever. Por isso, porquê não me tornar uma escritora? Entretanto apercebi-me que também gostava de traduzir e editar textos. Era tudo tão simples, a resposta estava mesmo ali à minha frente! Quando chegou a hora de fazer alguma coisa, dei um passo em falso. Não sei se foi o curso que era o errado, se era a faculdade, se era simplesmente o timing... Mas tudo correu mal. As aulas eram todas aborrecidas, os professores preferiam falar da sua vida do que dar aulas universitárias, as praxes foram uma desilusão gigante, amigos contava-os em apenas uma mão, a solidão e a desmotivação mordiam-me e aproximavam-se a pouco e pouco. E a minha mãe não me deixou mudar de curso quando eu lhe pedi a primeira vez. Para além disso, este não era um curso universitário igual aos outros. Eu não podia simplesmente faltar às aulas e ir aos exames - se pudesse, tinha-o feito talvez em apenas três anos e agora já estava despachada. Não! As aulas eram obrigatórias, apresentações orais, dois testes por semestre, ensino secundário all over again... Mas ao menos no secundário os professores estavam preocupados em ensinar-nos alguma coisa. E ali... Ali estavam simplesmente a gozar com a nossa cara enquanto pagávamos propinas de 1000 e tal euros por ano já para não falar em passes e alimentação. Sentia-me num beco sem saída. E não queria desiludir ninguém. Tanta força fiz para continuar que um dia simplesmente não aguentei mais e sofri um esgotamento nervoso que me levou a desistir de tudo. Cancelei a minha matrícula, cancelei a minha vida inteira. E simplesmente fiquei alguns meses enfiada debaixo dos cobertores, a olhar para o tecto, para o ecrã do computador, a ouvir a vida a passar por mim...

E acho que vou ter de parar por aqui. Amanhã continuo. É melhor.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

I'm going through changes... - II

De carro completamente cheio e uma sensação estranha no peito e no estômago, saí de casa com o João. A meio da viagem apercebi-me que o pai dele só estaria em casa depois de jantar e que ainda teríamos que fazer tempo até podermos ir para lá. Estávamos ainda no fim da tarde, ainda não tínhamos jantado e eu sentia que tinha a minha vida toda empacotada dentro daquele Fiat de 1997. Foi então que tive o meu primeiro ataque de pânico. Eu bem sabia o tempo que demorara a arrumar as coisas todas dentro daquelas malas por isso só conseguia imaginar o tempo que iria demorar a arrumar o meu novo quarto. Para além disso, eu não queria deixar o carro sozinho. Sentia que, se alguma coisa acontecesse, iria perder todos os meus bens materiais. E a melhor parte é que eu nem sequer sou muito materialista em comparação a amigas minhas que iam às compras todas as semanas. Mas naquela tarde quase que pareci uma princesa ofendida por não estar dentro do meu castelo.

O João aturou-me durante quatro horas naquela ansiedade. Para além de ouvir as minhas queixas, ainda me deu a mão e conduziu em silêncio, dando-me o espaço que eu precisava para pensar. Quando chegámos à nossa nova cidade, foi imediatamente a casa da avó buscar mantas e com elas tapou todo e qualquer conteúdo que podia estar à mostra no carro. Na altura só pensava o quão nas vistas aquilo dava - era óbvio que estávamos a esconder alguma coisa ali. Depois disso, com apenas 40€ na conta, levou-me a jantar a um restaurante italiano. Na altura não fazia a mínima ideia do quão curta estava a nossa vida em termos monetários e também não consegui dizer que não a uma boa lasanha. "Eu sei que quando estás a ter um dia mau gostas de comer um bom jantar." disse-me ele, enquanto sorria do outro lado da mesa. Foi só aí que comecei finalmente a acalmar. A verdade é que o meu maior tesouro não era aquele que estava dentro do carro, mas sim aquele homem que me estendia a mão por cima da mesa e olhava para dentro da minha alma.

Quando, depois de várias horas, chegámos a casa do pai dele, tive que ser eu mesma a acalmar a minha ansiedade. Homem solteiro de 50 e tal anos, uma gata e uma casa completamente suja e cheia de tralha. Decidi que não me iria descalçar. Pensar em pisar aquele chão causava-me náuseas. No entanto, para quê queixar-me? Estava ali o exemplo perfeito de tudo o que a minha mãe receava que eu me tornasse. Eu sabia que nunca iria ser assim só de olhar para aquele cenário. Por momentos quis ir buscá-la a casa só para ela me ver a varrer o chão, a esfregá-lo, a arrumar a roupa nos armários, a arrumar as mariquices todas no seu sítio certo, a fazer a cama, a limpar o frigorífico, a ir às compras, a lavar a loiça... Foi assim que se passou o meu fim-de-semana. E em dois dias, a casa parecia outra. A gatinha já se roçava nas minhas pernas enquanto eu caminhava descalça e um pequeno sorriso aparecia nos meus lábios.

Um problema estava resolvido. Outro chegou quando, ao irmos às compras, me apercebi que a nossa conta já ia em 100 e tal euros negativos. Ainda faltava dez dias para o fim do mês e ali estávamos nós: eu desempregada, com uma licenciatura por terminar, à procura de algo que me faça minimamente feliz; e o João a trabalhar numa empresa onde o trabalho físico não pára, as horas extra estão sempre a contar e apenas o ordenado mínimo a cair no final do mês. Foi nessa altura que perguntei a mim mesma "O que construí eu até agora?" Uns quantos livros, uns quantos contos, uns quantos projectos... Algumas capacidades nesta e naquela área. E no entanto continuo a tremer perante a hipótese de voltar à Faculdade de Letras para terminar o meu curso. Tremo, ainda mais, por ter de arranjar um emprego que provavelmente eu nem sequer vou gostar. Tremo, no meu íntimo, tornar-me a minha mãe. Não que ela não seja uma mulher forte e capaz. Mas temo anular a minha vida inteira por causa de alguém, esquecendo-me de mim mesma. Mas ao mesmo tempo vejo o João a esforçar-se todos os dias e penso "És tão egoísta... Faz alguma coisa!" E aqui ando, a tentar compreender e a tentar descobrir o que é que a minha vida vai ser daqui para a frente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

I'm going through changes... - I

"João, segunda-feira estás disponível para me fazer um favor?" perguntou a minha mãe.
"Segunda-feira já cá não estamos, vamos amanhã mudar-nos para casa do meu pai." respondeu o meu namorado. O silêncio invadiu o quarto de paredes cor-de-rosa. "Mas posso ajudar à mesma, é só dizer o que precisa."

A minha mãe costumava perguntar-me porque é que ele tinha que ir dormir lá a casa e porque é que tínhamos que passar tantas horas juntos. Eu dava-lhe a resposta mais sincera de todas e ela mesmo assim não ficava satisfeita. "Porque gostas dele?" repetia ela a seguir, como se não fosse o suficiente. Acredito que cada um tenha uma maneira de amar diferente. Há pessoas mais desapegadas que outras, que preferem ter o seu próprio espaço e a sua independência sem serem incomodadas por segundos ou terceiros. Eu, pelo contrário, gosto de partilhar cada momento da minha vida com a pessoa que amo. Por vezes nem sequer precisamos de estar a conversar ou a olhar um para o outro; basta-me a sua companhia, a sua energia a tocar a minha muito suavemente. Mas explicar isto à minha mãe é praticamente impossível.

O que também é praticamente impossível de explicar é que o ambiente lá em casa não é nada saudável. Casados há mais de trinta anos, eu sempre achei que os meus pais eram considerados os Resistentes enquanto via os pais dos meus amigos a divorciarem-se ou a separarem-se. Sempre me orgulhei da relação que eles tinham e sabia o quão sortuda era por tê-los a ambos na mesma casa. Mas depois cresci e comecei a tomar mais atenção. As pequenas coisas eram as que faziam a maior diferença. Primeiro vi a minha mãe a não comprar uma peça de roupa nova durante anos e anos seguidos, dizendo sempre que ia precisar daquele dinheiro para alguma coisa; passados alguns dias, o meu pai comprava uma aparelhagem ou umas colunas novas. E ela continuava com a mesma roupa velha de sempre. Depois decidiram comprar uma casa no Alentejo. Sei que a minha mãe o acompanhou para todo o lado enquanto andavam a ver casas mas também sei que foi ele que insistiu que precisavam de uma casa de férias. Agora vão lá um fim-de-semana por mês para limpar a casa, gastar dinheiro com ela - porque é uma casa muito antiga e está constantemente a precisar de obras - ou para, uma em vinte vezes, realmente irem passar férias. Férias essas que eles passam mais tempo enfiados em casa a discutir do que realmente a usufruir do tempo livre que têm, passeando por aqui e por ali e experimentando a gastronomia local. Habituados a gerir o pouco dinheiro que tinham quando eram novos e ambos estavam desempregados, tornaram-se num casal perito em poupanças. Almoçar fora? Nem pensar! Ir a Sintra dar uma voltinha? O gasóleo e as portagens estão demasiado caros! Ir ao cinema? Para quê? Vamos esperar que o filme saia na TVI e depois passamos a tarde em casa a vê-lo. Tens frio no Inverno? Paciência, não queremos gastar muito dinheiro em luz portanto não tenhas o aquecedor sempre ligado. Precisas de uns ténis novos? Estás louca? Pára de gastar o meu dinheiro à toa que eu quero ir comprar uns vinis novos e preciso dele.

E depois chegavam os dias melancólicos... Os dias que o meu pai devia passar com a minha mãe, levá-la a passear ou simplesmente valorizar a sua companhia e se ia embora para sair com os amigos, com quem já passava a semana toda. E eu, sozinha em casa com a minha mãe, assistia à sua solidão. Quando me dava a conhecer, gritava comigo por eu não levá-la a lado nenhum. Por algumas vezes disponibilizei-me a ir passear com ela para que isso não acontecesse mas, mais uma vez, cresci. Comecei a construir a minha vida, o meu espaço, o meu círculo de amigos, os meus interesses... E às vezes até tentava incluir a minha mãe nisso tudo mas era impossível. Idades diferentes, gostos diferentes... E depois começaram os choros. Tardes inteiras em que ela gritava e chorava enquanto corria pela casa à procura de algo... Algo que nunca encontrou. Quando o meu pai chegava a casa, completamente à parte de tudo o que se passara durante o dia devido à sua indiferença, as discussões começavam outra vez. Gritos, acusações, tempestades... Energia quebrada e suja a encher-me o corpo de dores excruciantes. Só queria sair dali. Fugir e nunca mais voltar. Não seria tão mais fácil se simplesmente cada um seguisse o seu caminho e parassem de se magoar um ao outro? A primeira vez que o sugeri, a minha mãe ficou tão chocada comigo que só não me pôs de castigo porque sabia que eu já não era nenhuma criança pequenina. E eles lá continuam... Uma roda que gira sempre na mesma direcção, passando sempre pelas mesmas situações, pelos mesmos problemas e sem nunca chegar a uma conclusão, a um fim. Ou a um recomeço. Por isso, desde os meus 17 anos que um dos meus maiores objectivos era sair de casa. Não se trata de não os amar. Não se trata de não os querer perto de mim. Trata-se de manter a minha sanidade mental intacta e o meu foco em assuntos mais importantes e relevantes para a minha felicidade. Confesso que parte da minha felicidade passaria também pela felicidade dos meus pais mas já não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Está tudo nas mãos deles e nenhum deles quer mexer-se e desequilibrar tudo o que já construíram juntos - o que eu compreendo perfeitamente, daí ter arranjado outra maneira de me manter a mim feliz.

Eles nunca acreditavam em mim quando eu dizia que ia sair de casa brevemente. No entanto, no sábado arrumei a minha roupa toda de Verão/Outono em duas malas grandes de viagem, arrumei a minha maquilhagem, alguns livros, o meu computador, a minha máquina fotográfica e segui viagem para casa do pai do João. Nessa noite, a minha mãe não conseguiu dormir. Antes de me ir embora, o meu pai abraçou-me como já não fazia há alguns anos. A minha mãe hesitou ao sair de casa para ir aos anos da filha de uma amiga dela, sabendo que quando voltasse eu já não estaria lá. E em três dias, já me ligou nove vezes, fazendo-me perguntas e pedindo-me indicações para certos assuntos, como se precisasse de mim para seguir a sua vida em frente. E eu? Eu escreverei mais tarde o que se passou comigo.